Saturday, January 30, 2016

Futebol americano como um jogo de guerra

Vasculhando a pilha de posts incompletos do blog achei esse texto aqui, de 2012. Eu não sei muito bem para onde eu estava indo com o texto, mas eu gostei do parágrafo inicial. Vai publicado assim mesmo, incompleto.


Em qualquer esporte, existem diversos níveis de compreensão. Pegue o futebol por exemplo. O nível mais raso de compreensão é o de que o objetivo é colocar a bola dentro do gol adversário sem utilizar as mãos. Um observador um pouco mais atento perceberá aspectos mais peculiares como a regra do impedimento, a diferença entre uma falta e uma dividida limpa, a habilidade individual dos jogadores. O nível racional mais profundo inclui a compreensão tática, a distribuição dos jogadores em campo, a sinergia entre as diversas habilidades dos vários jogadores... nesse nível o futebol deixa de ser um jogo onde 20 homens correm atrás de uma bola e passa a ser um espetáculo onde a fluidez dos jogadores em campo, as jogadas longe da bola, as brigas entre jogadores, a interação com os técnicos, o cansaço, todas essas narrativas ficam evidentes e aumentam o espetáculo.

Mas o futebol é um esporte de regras simples. O futebol americano, por outro lado é um jogo complicado. E por conta disso, é fácil de se perder nos detalhes das regras e não conseguir enxergar a graça. Porque o futebol americano não é um jogo onde 22 homens se colidem constantemente. O esporte é um jogo de guerra.

Saturday, January 23, 2016

Gilgamesh


Resenhar um livro de mais de 2 mil anos é um ato patético. Os autores já se foram há muito tempo. E ninguém vai ler ou deixar de ler livro algum por conta de um abobalhado na internet. E no entanto, cá estou, escrevendo sobre o livro.

Mas, rapidamente, segue a história pra quem já não a conhece. Gilgamesh foi um rei Sumério, mortal mas com algum sangue divino. No início da história, ele é um rei injusto e cruel, mas temido por conta de sua força divina. Seus súditos pedem ajuda aos deuses, que enviam Enkidu, uma figura rústica e forte, tão forte quanto Gilgamesh. Eles se confrontam, o embate termina em empate e Gilgamesh e Enkidu viram amigos. O texto não diz explicitamente que Gilgamesh passa a ser justo, mas essa é uma conclusão razoável.

Em seguida, Gilgamesh e Enkidu combatem um demônio na floresta, desafiam e vencem uma deusa, sonham e interpretam sonhos e viajam. Ao ver seu amigo Enkidu ficar doente e morrer, Gilgamesh passa a refletir sobre sua própria mortalidade. Decide então tentar virar um imortal e vai atrás de um antepassado que virara imortal em função de ter salvado a humanidade de uma inundação.

Eu li a tradução em inglês, de Stephen Mitchell. Ele utilizou uma técnica interessante. Ao invés de tentar traduzir direto da língua acádia, que ele desconhece, ele resolveu remontar uma tradução a partir da coletânea de traduções existentes. E remontou como se ele tivesse reescrevendo a história, em inglês, ao invés de traduzir palavra a palavra. O resultado é bom. Essa tradução oferece um pulso poético agradável, que me lembra uma cantiga antiga. 

Não conheço nenhuma tradução em português. Se você quiser recomendar alguma, poste aqui!

Saturday, January 09, 2016

Botando a casa em ordem

Tanto este blog quanto o Entropicando andavam abandonados. Inclusive, o domínio do Entropicando venceu e eu nem havia reparado.

Resolvi simplificar a coisa toda. Agora eu tenho um só blog, esse aqui. Não sei se eu vou postar muito mais. Mas eu queria ao menos que o conteúdo do Entropicando voltasse à internet. Acho que os posts antigos são de valia pra muita gente. Com certeza vai ter muito link quebrado, mas a maioria do conteúdo se fecha no texto mesmo. Então acho que não vai dar muito problema.

Saturday, June 22, 2013

Só a antropofagia nos une

Ao longo dos últimos 100 anos, o que era manifesto se integrou na alma do brasileiro: "Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente." Parem de se devorar e comecem a dialogar. Esquerda, direita, reaça, petralha, etc são rótulos que descrevem tendências coletivas mas não indivíduos.

Olhe para o seu próprio umbigo e perceba que você tem um pouco de conservador, um pouco de direitista, um pouco de anarquista, um pouco de libertário, um pouco de comunista, um pouco de fascista. Todos são assim, o que muda é o equilíbrio entre as várias tendências no indivíduo.

Nasci e cresci num país monocultural. Um mundo em que "política, futebol e religião não se discute". Onde educação não era muito diferente de uma doutrinação. Onde discussões em torno de uma opinião ou ação política se reduziam a um julgamento sumário dos indivíduos. Tudo, todos eram analisados sob a ótica da ditadura militar. Tudo ou era Arena ou era MDB ou era do partidão.

O resultado disso é que o brasileiro não aprendeu a lidar com as contradições internas inerentes das ações humanas. Ao invés de tentar entender a questão de fato, o Macunaíma dentro de nós diz "ai que preguiça" e julga sem saber nada. Por exemplo, até hoje é raro alguém falar sobre o FHC como um homem das esquerdas que utilizou ferramentas do mercado de capitais num cenário internacional pró-liberalismo pra estabilizar a economia. O debate é sempre se FHC é um esquerdista de verdade ou não. Oras, o FHC, assim como Lula, Marina Silva, Mangabeira Unger, Roberto Mangabeira, etc... são pessoas com contradições internas que surgem quando passamos do plano das idéias para o plano das ações.

O processo antropofágico real tem uma etapa em que se mata a vítima e ela passa a ser apenas carne. As individualidades humanas necessariamente desaparecem à medida que você vai devorando o outro. Nesse sentido, a antropofagia cultural brasileira é danosa. O problema não é tanto eliminação do indivíduo do discurso real. O problema é a morte ritual, que transforma o seu rival em um pedaço de carne que não interage com outros, apenas serve de nutrição para o nosso ser. Eu só fui entender isso nos últimos 3 anos, e ainda assim tenho dificuldades.

Saturday, May 11, 2013

Os vagabundos de Sakamoto

O Leonardo Sakamoto escreveu um artigo interessante sobre os críticos do bolsa-família e indaga por que é que esses não reclamam do dinheiro dado pelo governo aos ricos. Eu digo interessante porque eu também tenho problemas com as pessoas que criticam o bolsa família na base. Eu entendo que ele tem algumas conseqüências complicadas no mercado de trabalho, mas eu enxergo vantagens na caridade institucional através de um programa incrivelmente barato para o governo.

O problema é que Sakamoto é difícil de ser levado a sério porque ele sofre do males crônicos de autores descendentes de Rousseau. No caso desse texto, por exemplo ele escreve covardemente "não estou criticando ninguém" depois de dedicar um parágrafo criticando aqueles que induzem comportamento a partir de um caso, e os que pagam mais por uma garrafa de vinho do que gastam com salário de empregados. É o tipo do autor que parte de uma idéia (vamos criticar os vagabundos ricos, afinal o governo gasta com eles a dívida pública?) e tenta forçar a realidade pra se conformar com sua idéia. É por isso que ele precisa toma algumas liberdades como a acima.

Ele se esquece por exemplo de que "filhinho-de-papai" é um termo comum e pejorativo em todos os estratos sociais. Assim como "latifundiários" ou "industriais" é pejorativo em vários círculos. Ele mesmo usa a ironia do dízimo, ironia que funciona porque é parte da cultura corrente considerar o pagamento de dízimo uma transferência de renda pra uma instituição já rica e vagabunda. Já faz parte da cultura corrente criticar os vagabundos ricos tanto quanto os vagabundos pobres, ele não propõe nada de novo.

O problema maior com o texto do Sakamoto é que ele voluntariamente ignora que a crítica FUNDAMENTAL do discurso liberal contra o controle do fluxo de dinheiro pelo estado é a geração de vagabundos, tanto ricos quanto pobres! É a mesma crítica que Lobão fez da lei Rouanet, que gera vagabundos da classe artística. É a mesma crítica que muitos fazem ao investimento do estado em pesquisa, que gera vagabundos na classe intelectual. É a velha crítica do Reinaldão aos jornalistas que são sustentados pelo governo. É a crítica dos que não gostam do BNDES.

Sim, Sakamoto está se referindo especificamente ao gasto governamental com a dívida pública, mas aí é falsa ingenuidade da parte dele. Ele sabe muito bem que juros em dívida pública não é doação de dinheiro pra quem é rico e sim remuneração por recursos emprestados ao governo. Se eliminássemos o bolsa-família, o estado teria mais dinheiro. Se zerássemos o juros na dívida, ninguém emprestaria ao estado e ele teria menos dinheiro.

E essa sacanagem argumentativa é importante porque para Sakamoto, o rico que deve ser criticado não é exclusivamente o vagabundo, aquele que toma o recurso do BNDES mas não produz. Ele também critica o rico que investe, faz lucro e empresta esse lucro ao governo, como deixa escapar em "(...) com distribuição imediata (e não depois que o bolo crescer)". E é esse tipo de discurso que faz o criticado ser tachado de fundamentalmente comunista. Criticar vagabundo rico é a essência dos que criticam o comunista.

Saturday, April 20, 2013

Sobre o mestrado em Valesca Popozuda

O assunto "ê, Brasil" da semana foi a aprovação de um projeto de pesquisa na UFF. Uma aluna resolveu estudar um assunto que a alta classe cultural brasileira considera desprezível: o funk carioca de Valesca Popozuda. Eu tenho minhas críticas à aparente metodologia tal como apresentada no jornal*. Mas veja, eu acredito que é possível fazer uma análise excelente das funkeiras cariocas como expressão do feminismo no morro. Também acho que é muito prematuro já sair por aí condenando a aluna, a UFF e até o sistema de educação brasileiro sem nem ler a tese da moça. Já os comentaristas do UOL (versão brasileira dos comentaristas do youtube) no entanto fazem críticas à existência do próprio estudo, com aquela afetação intelectualóide típica de quem fala mal de Paulo Coelho mas não sabe exatamente o que está criticando porque nunca lê porra nenhuma. Mas acho que vale a pena examinar os três focos de crítica que eu vi por aí.

* não gosto dessa coisa de ficar usando ideologia (no caso o feminismo) como muleta pra análise de um fenômeno cultural (o funk) 

O primeiro trata da qualidade do funk no espectro cultural brasileiro. Não haveria mérito em um estudo sobre o funk carioca por este ser forma de expressão vulgar e trivial. O funk é uma porcaria, portanto qualquer estudo sobre o funk será uma porcaria. Esse é o tipo de gente que confunde um estudo com o objeto de estudo. Uma tese sobre válvulas cardíacas não é uma válvula cardíaca. Da mesma forma, um estudo sobre funk não é um funk. A tese pode ser extremamente erudita, da mesma forma que um estudo sobre Stravinsky pode ser mais incoerente que um livro de 100 páginas contendo apenas "ah lelek lek lek lek". 

A segunda crítica gira em torno do uso de recursos públicos pra esse tipo de estudo. Acho essa crítica é pertinente no mundo idealizado em que essas pessoas vivem, mas ela parte do princípio de que essa moça está roubando a vaga de alguém que poderia estar fazendo algo mais útil. O problema é que há verba para ciência no Brasil. O que falta não é dinheiro, mas gente capaz de fazer algo com isso. Sim, sempre há a opção de não investir e reduzir impostos, mas... isso não vai acontecer no Brasil.

A terceira trata da utilidade desse tipo de pesquisa. E, aliás, esse é um tipo de crítica que é estendida a todo o corpo de ciências humanas e sociais. O argumento é o que ciências humanas/sociais não servem pra nada. Isso aí é típico da modinha atual dos círculos de amantes do liberalismo* e ceticismo** no Brasil. O curioso é que em muitos casos o mesmo cara que, ao mesmo tempo que diz que estudos culturais não servem para nada, critica o monopólio do pós-comunismo nas redações e nas universidades. Uai, afinal, cultura afeta ou não o indivíduo?

* governo não tem que ficar gastando dinheiro com pesquisa!, dizem estes ao mesmo tempo que usam tecnologias criadas com investimentos deficitários governamentais como a internet ou a quimioterapia ou a Embraer

 ** ciências sociais não seguem o método de Popper! dizem estes, sem saber que a única ciência que segue o método de Popper é a que existe na cabeça deles, sem contar que estes confundem pureza metodológica com utilidade

Usando uma versão bastarda da analogia socrática presente n'A República, a cultura é a alma da sociedade. Ciência e engenharia, são como o conhecimento e coordenação motora no indivíduo. Elas são importantes para a atividade econômica e para o poder militar da nação. Mas a cultura é o que dá sustentação às diversas ideologias presentes na sociedade. Como exemplo, o espírito empreendedor nos EUA não é produto das leis americanas mas parte da alma americana, composta por figuras como George Washington Carver e Benjamin Franklin e Tom Sawyer e Charles Kane. Da mesma forma que o espírito malandro no Brasil foi composta pela presença no imaginário popular da sacanagem dos bandeirantes e senhores de capitanias e cafajestice de personagens de Machado de Assis e Nélson Rodrigues.

Estudos culturais tem o papel de analisar todos esses componentes, tal qual um psicoterapeuta destrinchando todas as influências das experiências escondidas no subconsciente do coletivo. Daí vem sua importância. Um estudo bem feito sobre o funk como expressão feminina ajuda a entender a situação da mulher no ambiente social em que ela vive. Estudos sobre a literatura tem potencial de identificar as origens do caráter nacional. Estudos históricos ajudam a entender porque a política é como é. Estudos sobre religião ajudam a entender porque a moral individual é como é. As ciências sociais e humanas são a forma como a sociedade pára para olhar o próprio umbigo.

Sunday, April 14, 2013

Diferenças entre ser bom e conhecer o bem

O mais recente livro em minha jornada para entender a cultura literária contemporânea foi "White Tiger" (Aravind Adiga), vencedor do prêmio Man Booker de 2008. O livro conta a história de um homem indiano de origem miserável que conquistou arduamente seu espaço na sociedade. Esse tema parece remeter ao da história de Slumdog Millionaire.

Mas, ao contrário de Jamal Malik, sua ascensão social não se deu como num conto de fadas em um universo brutal. O protagonista do filme nunca perde sua bondade interna. E isso é possível porque, por mais sofrida que tenha sido a vida de Jamal, a fortuna aparece como resultado de eventos fortuitos, uma recompensa kármica que resulta de sua bondade. Em Slumdog Millionaire, existe uma justiça divina.

Já o universo em que Balram Halwai vive é muito mais injusto, é sombrio, onde é impossível ser recompensado por atitudes nobres. A única maneira de ascensão social é através da conquista brutal do ambiente corrupto e feio. Balram desce moralmente a esses níveis de feiura para poder subir na vida. O que torna esse romance notável é que, ao invés de utilizar o subterfúgio da luta de classes na sociedade, vemos a luta interior entre bondade e sucesso corroendo o interior de Halwai.

Não são os personagens em volta dele nem sentimentos de nobreza ou de justiça social que o levam a pecar contra a sociedade mas sim seus pecados e desejos interiores. Halwai rouba porque quer foder uma prostituta estrangeira. Halwai mata porque teme ser demitido por seu patrão. Do ponto de vista da narração retrospectiva, Halwai racionaliza suas atitudes através da imagem da opressão no galinheiro, imagem que ele usa para descrever a injustiça intrínseca de seu universo. Mas a angústia com que ele descreve seu estado mental diante das escolhas mostram que Halwai percebe o custo que escolhas "maquiavélicas" tem pra sua alma.

Balram entende que vive num mundo em que pessoas são punidas por fazer o certo. E ele faz o errado sabendo que será premiado. Mas, enquanto ele segue na direção sul, sua bússola moral continua orientado para o norte, ele continua consciente da diferença entre certo e errado. Jamal continua sendo uma pessoa boa após sua vida tortuosa. Balram continua sabendo o que é o bem.

A única crítica que eu tenho a esse livro é que o uso da primeira pessoa é artificial. Balram demonstra uma capacidade milagrosa de compreensão de seu mundo, digna de um narrador omnisciente. Por outro lado, os sentimentos de culpa, angústia, inveja aparecem quase sempre através de simbolismos no mundo efetivo, raramente pelo fluxo de pensamentos. E a estrutura confessional não altera em nada o estado do autor ao longo da história. Por esses motivos, eu acho que o romance poderia muito bem ter sido escrito em terceira pessoa. O único motivo que vejo para o uso da primeira pessoa é o fato de que o autor pode se esconder atrás do personagem para emitir opiniões politicamente incorretas, o que para mim é uma atitude covarde.