Monday, June 04, 2007

Epigenética



O destaque da Nature deste mês vai para o estudo da epigenética, estudo das características genéticas que não estão ligadas a alterações causadas na seqüência do DNA. A definição parece contraditória diante do que ensinam na biologia da escola, não é? Mas existem variações que são puramente genéticas, completamente independentes de fatores ambientais, mas que não são variações na seqüência do DNA.

Para isso fazer mais sentido, é preciso lembrar de como saímos do genótipo e chegamos ao fenótipo. Isso se dá através de um princípio chamado de Dogma Central da Biologia Molecular - nome que eu particularmente detesto - e que diz que o fluxo de informação nas células se dá do DNA para o RNA através da transcripção, e do RNA para as proteínas num processo chamado tradução. E as proteínas são as que vão dar características para nós: melanina dá o tom da pele, hemoglobina dá a capacidade de armazenar oxigênio no sangue e assim por diante. Mas quem é que comanda os processos de transcripção e tradução? Todos os homens, salvo os que sofrem de albinismo, produzem melanina. Porque as pessoas de pele negra produzem mais melanina que as pessoas de pele mais clara? Porque algumas regiões da pele deste gato produziram pigmento negro enquanto outros não produziram e o gato ficou malhado, se todas as células tem o mesmo código genético?

A resposta para essa questão está em outro grupo de proteínas, os fatores de transcripção. A produção de uma molécula de RNA a partir de uma molécula de DNA é um processo metabólico coordenado por outras proteínas e essas proteínas funcionam grudando no DNA em pontos-chave e atraíndo outras proteínas que formam o maquinário de transcripção. Então um gene será mais ou menos transcripto, e portanto mais "influente" se os pontos-chaves associados (chamados de origem de transcrição) forem mais ou menos atraentes, e expostos aos fatores de transcripção.

E aí é precisamente aí que surgem alguns fenômenos epigenéticos. Um exemplo é a metilação/acetilação das histonas e o chamado "código histônico". Histonas são proteínas que tem função de "empacotar o DNA", mais ou menos como um carretel enrola um novelo. E a acetilação ou metilação das histonas pode alterar a afinidade entre histona e DNA e histona-histona o que afeta o quão enrolado o DNA está. Quando menos enrolado o DNA, mais fácil ele irá se expor a fatores de transcrição e vice versa.

Não sei se o caso da melanina na pele é um caso de epigenética (provavelmente não é), mas existem casos interessantes de epigenética, como as manchas dos gatos malhados, alguns padrões em cores em flores, e a inativação do cromossomo X em mamíferos. A epigenética foi uma rasteira que a natureza deu nos geneticistas que julgavam ter matado as charadas da vida!

2 comments:

  1. os negros não produzem mais melanina! produzem sim mais vitamina D que permite maior fixação de vitamina D.

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