Friday, June 22, 2007

O fim do darwinismo?


Antes de mais nada, eu quero deixar bem claro que eu não sou criacionista, apesar do título deste post! Mas eu sempre tive uma aversão à idéia de que as mutações aleatórias no DNA eram exclusivamente responsáveis pela evolução natural. Não que eu tenha algum problema com a vida surgida ao acaso, acho que isso é bem possível, aliás é como eu acho que surgiu mesmo. Meu problema é com a exclusividade dada ao todo poderoso DNA. Afinal, muito mais material é transmitido de uma célula para suas descendentes, como mitocôndrias, ribossomos, RNAs, proteínas... Sendo a evolução um método estocástico, me parece razoável pensar que o mecanismo de transmissão de informação genética não será um sistema de partes completamente independentes e completas, eu imagino que é um processo mais orgânico, mais caótico e que depende de muitas partes inter-relacionadas, e que não fazem muito sentido sozinhas. Em uma grosseira analogia com computação, eu acho mais fácil que a vida seja como um programa macarrônico e mal organizado que um programa bem dividido, bem segmentado. Por isso eu sempre tive problema com o dogma central da biologia molecular, onde cada um dos elementos tem uma tarefa clara e bem definida.

Parece que minha intuição não estava de todo errada! (Já disse que eu sou megalomaníaco?) Além das novas descobertas no campo da Epigenética, duas matérias, uma no The Economist desta semana e outra na Scientific American de julho (link para assinantes) trazem uma nova visão da genética e dos processos vitais, diminuindo o enfoque nas moléculas da vida e aumentando o enfoque nos processos envolvidos. E, como bônus, indicam até que talvez Lamarck não estivesse tão errado assim!

A matéria do Economist trata da revolução do RNA, descrevendo as descobertas recentes que dão indícios de que o RNA pode ser mais importante que o DNA na determinação de muitas características, principalmente as que diferenciam as diferentes espécies de animais, usando como indício o fato de que o código genético humano não é tão diferente assim do da mosca D. melanogaster ou do verme C. elegans. Não é uma revista científica então a abordagem não foi tão detalhista, mas não deixa de ser bacana de se conferir.

Já a matéria da Scientific American traz uma análise das teorias de origem da vida e contrapõem o modelo em que surgiu uma molécula de vida primeiro com o modelo no qual se dá importância a qual foi a primeira série de reações químicas que podem ser consideradas vida. O autor, Robert Shapiro, altera o conceito de vida para uma cadeia de reações que é capaz de, localmente, reduzir a entropia e que é isolado por membranas. E a evolução se dá quando um novo processo é adicionado a atual cadeia de reações, recursivamente. Assim, a evolução pode se dar tanto via Darwin, quando a reação é modificada por um processo estocástico, quanto via Lamarck, quando a reação é modificada via um fatores ambientais. Esse modelo é capaz de explicar, entre outras coisas, porque o ATP e o GTP são, além de nucleotídeos (adenina, guanina), moléculas também metabólicas. Eu acho que vale a pena ler esses dois artigos, acho que eles revelam um movimento "underground" da ciência que muito em breve irá ver a luz do dia!

A minha opinião depois de tudo isso é a de que vai se chegar a um modelo onde o darwinismo age sobre o DNA, molécula ultra-estável, e uma mistura de darwinismo e lamarckismo agindo sobre as histonas e os micro RNAs, moléculas mais instáveis. E acho que estamos chegando ao fim da velha batalha nurture vs. nature (ambiente vs. genética) e o resultado é um empate técnico, mostrando que os dois importam, afinal de contas. São tempos emocionantes para a ciência!

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