Sunday, July 15, 2007

Conhece-te a ti mesmo


Imagem retirada de um stream muito engraçado no Flickr sobre criacionismo...

Eu não sou muito chegado a discussão em cima de polêmicas entre ciência e não-ciências, como religião e astrologia. Acho inútil e contraproducente. Mas aí, dia desses, eu vi o thread de comentários sobre este artigo e confesso que fiquei perplexo. Não vou ficar aqui para defender outros blogueiros-cientistas porque eles costumam se garantir sozinhos mas eu fiquei tentado a colocar aqui minhas opiniões a respeito. Mas eu vou tentar não entrar mais nesse tipo de discussão porque eu acho que posts xingando criacionistas e pseudo-cientistas são o equivalente blogueiro de malhar o Judas na páscoa. Justamente por isso, ao invés de ficar tentando desconstruir os Michael Behe's eu vou apontar o que eu vejo que está errado entre nós.

No livro "A Arte da Guerra", Sun-Tzu diz que aquele conhece bem o inimigo ganha uma batalha a cada duas mas aquele conhece a si mesmo e ao inimigo vencerá 100 em 100 batalhas. E eu acho que é aí que perdemos. Nós, cientistas iluminados e gloriosos, desacostumados a sermos contrariados, estamos esquecendo o que é a ciência e o que estamos tentando defender aqui. Estamos mais preocupados em defender mais a integridade do Darwinismo do que a meticulosidade do método científico. Estamos mais preocupados em dar lições de moral utilitária, tentando convencer as pessoas, à maneira tosca de Dawkins, que a ciência demonstra que Deus não existe, e deixando de lado as coisas mais belas e mais simples que nossos colegas publicam em jornais todos os dias. Estamos abusando do argumento de autoridade para ofuscar a falta de respostas para algumas perguntas sem resposta ao invés de ressaltar as pequenas respostas encontradas em laboratórios e corredores das Universidades no dia-a-dia. Estamos dando mais valor para os fatos atuais da ciência do que para os métodos quase eternos que nos seguem desde Pitágoras. Estamos fazendo exatamente aquilo que nós acusamos nossos inimigos de fazer: sendo irracionais.

O mundo científico já foi defensor de grandes baboseiras, enormes mesmo. O grande Galileo tentou defender a sua idéia de translação da Terra usando as marés era como evidência. Muitos cientistas do século XIX provaram que era impossível um objeto mais pesado que o ar voar. Aristóteles achava que os objetos tendem ao repouso e que seria necessário uma força contínua para manter um objeto em movimento uniforme. Inúmeros foram os alquimistas que achavam que era possível transformar chumbo em ouro. Maior ainda foi o número de químicos que achavam que o átomo era indivisível. Só nos últimos 50 anos, tivemos o escândalo da fusão nuclear a frio, a promessa de energia super barata para todos e não vamos nem falar dos fracassos da inteligência artificial. A ciência erra. Mais erra do que acerta. Não é à toa, portanto, que as pessoas sejam tão desconfiadas quando gritamos agora que o planeta vai derreter até o ano de 2050 ou quando dizemos que somos descendentes de primatas.

Acontece que a beleza na ciência não está apenas nas teorias que ela elabora, mas principalmente no fato de que ela é capaz de crescer mesmo através da elaboração de teorias erradas. Inclusive, é assim que a ciência progride. Assim que uma teoria é atingida, tentamos forçá-las até atingir os limites da teoria e quando batemos no muro, voltamos para a prancheta. Bertrand Russel, se não me engano, concluiu que apenas é científico aquilo que é falível. E é este o ponto que eu quero dar ênfase.

Mas aí, fica a pergunta, onde está o erro dos criacionistas em defender o "tratamento igual de teorias?" Por que um astrólogo não poderia dizer que o que ele o faz como dissidente da teoria tradicional astronômica? A resposta reside no fato de que eles não seguem o método científico. O fato de que a evolução tem falhas e problemas não é de se espantar. Aliás, é o que eu espero. Eu espero que os paradigmas correntes da genética, da física, da matemática, da psicologia e da computação tenham falhas. Se elas não tiverem, está na hora de mudar de profissão! O que não se pode é adotar um modelo que é intelectualmente desonesto como o da criação. Intelectualmente desonesto porque ele se esconde atrás de textos extensos e não resiste a perguntas simples como "porque um designer inteligente criaria espécies que seriam extintas". A astrologia não resiste a um teste cego estatístico simples.

(Não acho, inclusive, que este tipo de pensamento deveria ser purgado da humanidade. Defendo imensamente o direito individual à ignorância. As pessoas não têm que acreditar no que eu acredito. Só não faça isso numa faculdade ou numa aula de ciência. Além disso, vale notar que a ciência também segue um dogma: o da validade universal de experimentos e do método científico.)

Se o darwinismo estiver errado a ciência não perde. Se o universo foi, de fato criado há 6000 anos por um Deus barbudo e bonachão, a ciência também não perde. Porque a ciência se resume a um conjunto de teorias auto-suficientes e fechadas a partir do que somos capazes de observar. Se Deus existe e for mensurável, a ciência fatalmente vai descobrir isso. E aí, Darwin estaria errado mas a ciência não. O que não é vergonha nenhuma pra Darwin. Como todo grande cientista, ele contribuiu para melhorar a compreensão do universo e é esse o nosso trabalho. A ciência não perde enquanto os seus seguidores se dedicarem a melhorar nossa compreensão do universo.

A ciência só perde em uma hipótese: se os cientistas começarem a agir como muitos têm feito. Utilizando toda a carga da sua teoria e sapiência como uma bigorna. "Back off, I am a scientist, I know what I am talking about!" A ciência não pode ser escrava da vaidade dos cientistas, apenas dos resultados de suas experiências. As becas foram estabelecidas nas instituições de ensino superior inglesas para que os alunos ficassem impedidos de exibir os símbolos de status familiar e nobreza. As únicas regalias que valem no meio acadêmico são os títulos acadêmicos, ligados ao saber. O sobrenome não importa. Acho que está faltando um pouco disso nas discussões entre ciência e sociedade. A atitude "é muito complicado, eu não consigo te explicar, mas diminua o seu consumo de carbono senão a Terra vai derreter" tem que acabar. Quem viu o filme do Al Gore "Verdade incoveniente" e tem dois neurônios viu um zilhão de furos na explicação dele. Eu acho realmente que o aquecimento global existe e que temos que prestar atenção nisso senão estamos ferrados, mas a divulgação científica tem que ser feita por transmissão de conhecimento e não por propaganda estúpida.

A praxe na ciência não é nem nunca foi se esconder atrás da autoridade. A gravidade existe independente de Newton ou de Kepler. Nós conseguimos demonstrar a existência da gravidade por vários experimentos. E quando alguém duvida que massas se atraem, mostramos as evidências e pedimos para a pessoa elaborar uma teoria que explique os fenômenos. Não falamos "você é um bárbaro ignorante". Ensinamos. Educamos. Então, pessoas, paciência com aqueles que defendem teorias esdrúxulas. É uma tarefa árdua e ingrata. Mas é essencial que mantenhamos a cabeça no lugar e a razão na cabeça. Sem ataques ad hominem contra o Michale Behe para desconstruir uma teoria dele. Sem ofender os partidos conservadores todas as vezes que eles desprezarem o aquecimento global. A ciência é sobre argumentação e razão. É sobre o método e não sobre fatos. Não estamos aqui para defender Darwin, estamos aqui para defender a racionalidade.

2 comments:

  1. Há uns tempos que me sinto assustada com o desenvolvimento das ideias criacionistas. Fico contente por encontrar uma pessoa que explica tão bem a ciência sem cair na tentação de ofender os criacionistas. O que eles querem é que lhes dêem troco... Mas assusta.

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  2. Se pudesse fazer um resumo do texto dentro do texto, sublinharia: "(a ciência) É sobre método e não sobre fatos". Faz algum tempo que percebi que meu gozo com o conhecimento não vinha da verdade contida ali. Talvez da coerência, da empolgação, talvez fosse do fato curioso de que aquilo é evoluível. Porque quando é evoluível é meio que parecido com a vida, com a gente. Se move, muda, se enfia por aí resgatando Zus e falando certos e errados. Toda vez que uso a expressão "é assim" ou derivados, sinto como que um puxão de consciência, como que um aviso dizendo ops. Não é que não deva dizê-lo, é que tenho muita vontade de não ser dono daquilo. De deixar que falem, que opinem, ainda que me cause insatisfação, agonia, raiva até. Acho incrível a evolução da ciência e como ela tomou vida própria a ponto de termos que discutir sobre a vaidade em torno dela. Incrível no sentido bom. Mas nunca, apesar disso, achei-a suficiente.

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