Tuesday, July 17, 2007

Educação e criatividade


Começo aqui a minha participação no Roda de Ciência, uma iniciativa bacana na blogosfera. A idéia é que, a cada mês, blogs de ciência tragam opiniões sobre um tema definido. É uma espécie de mini-conferência sobre um tema (aliás, eu acredito que este seja o futuro das conferências científicas, mas isso fica pra outra hora). A cada mês é escolhido um tema e este mês o tema é a relação entre educação e criatividade.

Eu já havia publicado minhas opiniões sobre a educação no Brasil que podem ser resumidas à falta da cultura da educação. Acho que a sociedade brasileira é avessa ao aprendizado (em parte porque nem sempre estudo se traduz em dinheiro, em parte pela prevalência do pensamento gersoniano) e isso complica significativamente o trabalho do professor. Além de ter que transmitir conhecimento, ele passa a ter que lutar contra o preconceito besta de que aprender é perda de tempo. Então eu acho que a questão é: o que pode ser feito com a educação para vencer esta bareira?

Recém-saído das salas de aula do segundo grau (foi só há 7 anos...), eu ainda lembro bem das coisas que eu achava mais sedutoras e que tipo de estratégia eu achava sem sentido. Faço parte da classe dos privilegiados que estudaram em escola particular então eu fui exposto às mais modernas técnicas pedagógicas que educadores poderiam conceber: sistema de apostilas, mapas de idéia, internet, professores "amigos", experiências em sala de aula... Então o meu primeiro impulso foi o de tentar ver qual o tipo de técnicas que eu gostava e desgostava e quais me estimulavam a querer andar com as próprias pernas. Apostilas, por exemplo, eu gostava porque facilitava a vida. Exceto quando o professor usava mal e não complementava com leituras extras, porque aí o conteúdo ficava fino demais. Mapa de idéias era algo que minha professora de redação era capaz de usar maravilhosamente bem, mas que era confuso na mão da professora de geografia. À medida em que eu fui analisando essas pequenas coisas eu reparei que, no fim das contas, o que importa (surpresa!) é o professor! Então eu comecei a pensar nas coisas que eu gostava do professor A mas não gostava no professor B.

A primeira coisa que eu notei é que os professores que não tinham domínio do assunto que estavam ensinando me irritavam profundamente. Não existe truque pedagógico capaz de compensar a falta de conhecimento do material dado em aula. Não digo que o professor tenha que saber todas as respostas do aluno na ponta da língua, mas é necessário que ele tenha segurança enquanto ensina o material preparado e que ele tenha noção do quanto ele sabe e do quanto ele não sabe. Eu ouvi algumas vezes respostas incoerentes de professores de matemática que acabavam com o crédito que o professor tinha comigo... Às vezes um "eu não sei, vou procurar e semana que vem eu trago" ou "isso vc aprende na faculdade mais pra frente" faltava. Alunos são capazes de perceber uma charlatonice rapidamente, mesmo sendo ignorantes sobre o assunto. É importante ser honesto sobre o próprio conhecimento.

Outra coisa que eu percebi é que eu costumava odiar professores que perdiam muito tempo falando coisas inúteis e não relacionadas com a matéria. Uma piadinha no começo ou aquela tirada com o grupinho conversando no fundo da sala eram essenciais para eliminar a tensão e o cansaço mental que 50 minutos de sabedoria contínua são capazes de gerar. Mas uma piada a cada duas equações químicas é algo cansativo e afeta também a credibilidade do professor. Um outro elemento que me afetava eram professores que abriam um assunto falando "gente isso é complicado". Isso não afetava a credibilidade do professor mas funcionava como uma desculpa para não aprender. Uma frase de encorajamento como essa, quando dita antes de sequer nos dar a oportunidade de tentar aprender acaba virando uma prevenção contra a matéria difícil.

Uma coisa que me deixa confuso era em relação à aproximação entre professores e alunos. Eu sempre fui um defensor da idéia de que professores devem eliminar o máximo de formalidade que eles puderem, para facilitar o ensino por parte das crianças. Mas, preparando esse post, eu fiquei perplexo. Porque os professores que se aproximavam demais dos alunos eram piores do que os professores que faziam uma cara brava e usavam autoridade. Isso vai contra minha intuição, mas eu acho que deve estar ligado ao que eu levantei nos parágrafos anteriores: credibilidade. Um aluno, para acreditar no professor, parece que precisa que o professor seja superior a ele. Um professor que age como um colega não consegue passar seriedade o suficiente. Um mestre muito bom consegue gerar essa aura de respeito apenas com o seu conhecimento e não precisa fazer cara feia. Mas a média é bem mais baixa do que isso e a cara feia é capaz de compensar um pouco a ignorância, pelo menos na minha percepção de aluno.

Passemos à parte anedotal. Os melhores professores que eu tive era um professor de biologia que tinha cabelão, pedia para ser chamado pelo primeiro nome e sacaneava, respeitosamente, perguntas sem pé nem cabeça. Acho que era unanimidade na sala, ele era excelente. Outro professor de matemática costumava fazer apostas para quem resolvesse problemas: ganhava um Chicabon. Da classe dos sisudos, um professor de física tinha o hábito de exibir experimentos em sala de aula com freqüência... a gente achava ele meio fascista, mas ele inspirava respeito dos alunos... "ele é chato mas ensina bem". Um professor de história, que inspirava tamanho respeito pela abrangência do conhecimento que ganhou um título nosso de mestre, fez de mim, vidrado em ciências naturais, um amante de história. Talvez, o segredo principal para inspirar criatividade está em, antes de mais nada, amar o que você ensina e ser honesto com seus alunos. Acho que o resto flui naturalmente como resultado disso, sem precisar recorrer a artifícios.

Duas ressalvas. Eu estou sendo meio Maria Antonieta neste post porque isso tudo que eu falei em cima faça mais sentido quando a escola tem estrutura e os professores tem meios. Na falta de bons salários ou de luz elétrica, essas coisas aí ajudam, mas não são capazes de milagre. Além disso, eu descartei aqui a questão de que os professores só podem construir metade das pontes e os alunos precisam construir a outra metade. Professores são capazes de mostrar os caminhos, incentivar, mas não há pessoa capaz de ensinar alguém que se recusa a aprender.

Mais idéias sobre o tema:
Participação do você que é biólogo
Educação na sociedade portuguesa

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