Saturday, October 13, 2007

Ah, as notas Capes




Então saiu o resultado das avaliações Capes dos programas de pós-graduação no Brasil. O resultado é um pouco melhor do que o resultado dos últimos anos. O que isso significa? Que os programas de pós-graduação brasileiros estão ficando melhores? Talvez sim. Mas também pode significar que a avaliação está ficando menos rigorosa. Parece uma agressão gratuita essa declaração, mas a razão pela qual eu levanto essa possibilidade vem do spin dado pelo site da Capes, que foi copiado pela Folha.

Olha, o fato de a Capes dar uma nota 6 ou 7 para um programa não significa que o programa automaticamente passa a ter nível de qualidade mundial, "comparável à Harvard ou a Sorbonne". Os programas são provavelmente muito bons, mas uma olhada rápida no documento e vemos que a grande maioria das áreas tem uma nota 7 e é difícil encontrar uma área da Capes que não tenha ao menos uma nota 6. Isso indicaria que o Brasil é tem centros de excelência internacional em virtualmente todas as áreas da ciência, o que me parece um tanto quanto exagerado: temos apenas 2% dos artigos publicados no mundo científico.

Existem outros indicadores da qualidade de uma universidade ou de um programa. E quando queremos dizer que um programa tem nível europeu ou americano, estamos dizendo que um programa teria o mesmo valor de um curso feito na Europa. Um indicador sensato desse evento seria o fato de termos um grande número de estrangeiros nestes programas (ainda mais que os cursos brasileiros são gratuitos!), o que não me parece ser um fato verdadeiro... Eu, da minha parte, não acho que fazer Astronomia na USP (conceito 7 na Capes) é igual a fazer Astronomia em Cambridge ou em Boulder no Colorado...

Ainda sobre a Capes, a foto lá em cima é da cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Científico. Ao todo 5 diplomas foram entregues. Dos 5 nomes, eu só consigo reconhecer um, o do ministro da educação, que eu só reconheço porque ele... é ministro! Por ser razoavelmente ligado à ciência (mas não ao sistema político-científico brasileiro), eu acho curioso como o governo dá esse prêmio como quem dá uva na feira. Acho curiosa também essa hierarquia esdrúxula na qual o presidente é o grã-mestre da Ordem. Pombas. Isso não é uma ordem científica - se fosse o conselho e o presidente seriam pessoas extremamente notórias por suas realizações científicas. Isso é uma ordem político-científica. É o tipo da coisa que serve pra encher o currículo Lattes da galera próxima ao planalto. Tá parecendo a Academia Brasileira de Letras com um José Sarney sentado lá.

Ler as declarações também são coisas interessantes. Lula: '"Em 2006, foram titulados 32 mil mestres e 9.300 doutores. Aumento superior a 30% em relação a janeiro de 2003", afirmou o presidente. Segundo ele, hoje, mais do que nunca, ciência e tecnologia fazem parte do eixo básico do modelo de desenvolvimento que está sendo implantado com sucesso no Brasil.' Não sei exatamente que modelo de desenvolvimento é esse aí em que a gente forma doutores para vender coco na praia. Sucesso de um modelo de desenvolvimento usando ciência e tecnologia, na minha opinião, é quando começam a surgir empregos e indústrias absorvendo essa quantidade imensa de doutores aí e mestres sendo formados.

4 comments:

  1. Um indicador sensato desse evento seria o fato de termos um grande número de estrangeiros nestes programas (ainda mais que os cursos brasileiros são gratuitos!), o que não me parece ser um fato verdadeiro...

    Você está esquecendo o fator "tradição". Por mais que os cursos no Brasil tenham qualidade, não têm o poder da griffe...

    Considero mais significativo o dado sobre publicações.

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  2. Não sei. Publicações pra mim são um indicador burocrático... Pode-se publicar muitos artigos irrelevantes sempre e me parece que se as universidades brasileiras não adquirem a marca, tem mais a ver com a irrelevância dos artigos do que o contrário.

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  3. ver o caso da China:

    2o lugar do mundo em numero de papers (170 mil/ano), porem em 20o lugar em numero de citações !!

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  4. Bem interessante seu ponto de vista.

    A idéia de que nivelar as avaliações por cima ajudam a nivelar a qualidade também por cima é coisa de quem vive olhando números e não o resultado prático, nas ruas e no mercado de trabalho.

    Parabéns pelo post!

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