Sunday, October 28, 2007

Pra cima de mim, não Olavo

No post do dia 9 de outubro deste ano o blog do Hermenauta trouxe um paradoxo que eu sempre achei curioso. Os pensadores do conservadorismo social são os primeiros a defender uma filosofia tradicionalista mas eles também adoram dizer que as maravilhas da modernidade são uma conseqüência natural o pensamento deles. Mas só as maravilhas. As besteiras, ah, isso eles jogam na conta dos vários "ismos".

Um dos "maiores" pensadores da direita conservadora social no Brasil é o filósofo Olavo de Carvalho. Coloco aspas porque este é um daqueles casos de "terra de cego". Se por um lado Olavo costuma ganhar de muitos brasileiros que resolvem comprar uma briga com ele, no meio americano Olavo de Carvalho não consegue ser convidado pra um programinha do Fox News, por mais mísero que seja, pra falar sobre o avanço do comunismo na América Latina, muito menos do avanço da mente revolucionária no mundo.

Mas não vou dizer que eu não gosto inteiramente do que ele fala. Afinal, como bom porco-direitista que sou, eu costumo gostar dos pouquíssimos brasileiros que se classificam como tal: Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho. Mas o problema dos dois últimos, Reinaldo Azevedo em um grau menor, é resumido nos paradoxo descrito no começo do post: no ímpeto de casar fatos com o conservadorismo social às vezes eles dobram os fatos. Por isso é preciso lê-lo com cuidado.

Vejam por exemplo a coluna do dia 25 de outubro no Jornal do Brasil. Comentando a entrevista de James Watson onde este fez declarações polêmicas sobre a ligação entre inteligência e raça, Olavo de Carvalho consegue atribuir o racismo ao iluminismo! O raciocínio (raciosímio, como diria Reinaldo de Azevedo) é que o conceito de raças foi criado por biólogos iluministas do século XVIII e que sem o conceito de raça não há como existir racismo. Ha. Qualquer idiota sabe que o racismo é bem mais velho do que isso. O racismo contra o negro nas américas, por exemplo, surgiu como uma conseqüência do comércio de escravos que se iniciou pelo menos 2 séculos antes do iluminismo. Abusando, se quisermos dar um pai ao racismo, teriamos que culpar renascimento ou as cruzadas, mas aí a conta do racismo ia parar no colo da igreja, coisa que Olavo não quer.

O problema que Olavo de Carvalho tem com o iluminismo vêm do fato de que este causou um cisma na Filosofia gerando duas correntes, a Teologia e a Ciência. Separou-se a Astronomia da Astrologia, a Alquimia da Química e a Metafísica da Física. Neste processo, a misticismo saiu como parte derrotada e foi relegada a um papel menor e o cartesianismo com sua forma "quadrada" de evoluir o pensamento foi o grande pensador. Por isso Olavo gosta de reduzir as contribuições de Darwin, Newton, Galileu e até mesmo Marx: por mais impacto que eles tenham causado ao pensamento universal a "impureza" destes é considerada uma marca que torna as contribuições ruins.

Vai parecer estranho para muito de vocês, mas eu também não sou muito fã deste distanciamento entre a ciência e o misticismo. O método científico é uma excelente forma de validar o pensamento, de consolidar as verdades, mas ele não apresenta os caminhos de como se gera uma nova teoria. Todos que trabalhamos com ciência, mesmo os ateus e agnósticos, temos uma crença ou uma fé que guia o que fazemos. É aquele instinto que nos leva a tentar provar algo. Einstein, por exemplo, tinha a fé na idéia de que é possível unificar as forças. Kepler tinha a fé na perfeição de formas do sistema solar. Quando as escolas falam pros alunos abandonarem seu sistema de crenças intuitivas para se dobrar à ciência, ela mata a possibilidade de produzir nova ciência: apenas os que ignoram essa lição serão capazes de produzir algo útil e não apenas ficar validando a teoria dos outros.

Mas a validação das teorias, que separa a ciência da mística, é um processo que tira das costas dos cientistas a necessidade de serem "puros". Darwin provavelmente era racista. Newton, certamente, era um babaca. Galileu era um provocador. Mas nem por isso a evolução natural deixou de funcionar, a gravitação universal foi desligada e a Terra deixou de girar em torno do Sol. Porque as teorias foram e ainda estão sendo testadas todos os dias nos laboratórios de pesquisas e nas observações de campo. Ao contrário da Igreja, que exige de seus santos e pensadores, um processo de purificação espirtual e intelectual, a ciência substitui todas estas exigências por uma simples: aceitar que fatos tem precedência sobre teorias.

Olavo é um crítico da ciência como religião. Eu também. Mas as razões são diferentes. Olavo acha que a ciência como religião faz parte do movimento da mente revolucionária. Eu já sou da opinião que o problema é que a ciência é a pior fonte de moral que uma pessoa pode escolher, porque a moral que a ciência fornece é a moral mais primitiva que existe. Acho que se você está em busca de uma moral, vá buscar em outro lugar, até mesmo pros agnósticos: leia Spinoza (mas não leia Chauí).

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