Friday, October 19, 2007

Um folgado ou alguém tentando curar o câncer?


Toda vez que eu vejo termos como "representação social", "responsabilidade social", "impacto social" e outras "socializações" eu me arrepio. Não porque a discussão em si seja irrelevante ou inútil, mas porque o rumo da discussão é sempre o que podemos fazer para mudar a sociedade, como se o problema fosse da sociedade, sempre a sociedade. Acho que a questão do espaço social ocupado por um cientista em seu meio passa pela questão de como o cientista influencia seu meio. Passa pela questão da relação entre o cientista e seus clientes, seu mercado consumidor. Readaptando a frase célebre de John Kennedy, não perguntemos o que a sociedade faz dos cientistas e sim o que os cientistas fazem pela sociedade!

No Brasil, muitas vezes, quando eu matutava sobre a hipótese de fazer pós-graduação em voz alta, muitos consideravam que isso era uma boa idéia pois assim eu "enrolava pra começar a trabalhar". Ou então ia virar professor ou pesquisador, o que na opinião popular é um desses "empregos-mamata". Então eu fiquei assustado quando, na Philadelphia, numa corrida do aeroporto até a universidade, o motorista perguntou "are you trying to cure cancer?" depois de saber que eu trabalhava com pesquisa. Eu não estava acostumado a esse conceito. A idéia de que um não-cientista achasse que um cientista é um membro útil da sociedade.

Admito aqui que eu estou sendo muito duro com a pesquisa brasileira. Muitos centros de pesquisa brasileiros são bastante importantes e tem impacto fortíssimo na sociedade brasileira. O INPE com sua previsão do tempo, a Embrapa e suas pesquisa, os grupos de pesquisa ligados à Petrobrás, à Embraer e às várias indústrias são uma óbvia evidência de que o cientista brasileiro agrega sim valor. Mas eu me recuso a jogar a culpa pela falta de reconhecimento na sociedade. Porque acho que, se por um lado existem muitos profissionais competentes na ciência, tem também muita gente que está lá por motivos bem menos nobres que o mérito acadêmico ou a excelência em ensino. E é exatamente este "câncer" que passa essa sensação. E quem aqui conhece algum instituto de pesquisa que não sofra deste mal, que atire a primeira pedra!

O estigma de que todo o cientista é um folgado pode ser injusto mas é, a meu ver, semelhante ao estigma do "todo político é ladrão". E este não é um estigma que pode ser apagado através de propagandas e desenhos animados mostrando o que fazemos de verdade, porque o problema de imagem tem origem naqueles de nossa classe que não fazem o que deviam estar fazendo. O medo de que pessoas formem uma imagem de cientistas porque eles são exibidos de maneira A ou B na ficção é besteira; é mais ou menos como temer que as pessoas achem que os ratos se comportem como o Jerry. Se os cientistas passassem a retornar para o sociedade no nível que a sociedade investe nos cientistas, teríamos mais taxistas nos perguntando se nós estamos atrás da cura do câncer.

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