Monday, December 03, 2007

A hipocrisia como um valor

Uma das acusações mais graves que se pode fazer a alguém é a de ser hipócrita. E isso na política se dá principalmente no que tange à corrupção. O político hipócrita é aquele que se diz contra a corrupção mas que está sempre lá se corrompendo ou sendo corrompido.

Mas nesse caso em particular, acredito que o mais grave não é a hipocrisia mas sim a corrupção. Quando um assessor de deputado que alega não ser corrupto é pego com dólares na cueca, o fato grave aí é o dólar na cueca. Dizer que não é corrupto é apenas a cereja na cobertura do bolo. O dinheiro tem que ser devolvido, explicações têm que ser dadas e o mandato deve ser abandonado.

A corrupção na política é um fato. É uma entropia. Não tem como deixar de acontecer. Por isso, qualquer político que se diz acima da corrupção é hipócrita, no mínimo conivente. Mas isso não quer dizer que a hipocrisia nesse caso é ruim. Porque para não ser um, é preciso ser abertamente corrupto, o que é pior.

Esse é um caso no qual a hipocrisia é um valor. Porque é uma espécie de garantia de que se o político for pego num escândalo, ele ira abdicar de seu mandato. Terá. Não fazê-lo seria insustentável. A mídia iria mostrar como ele foi hipócrita, a sociedade iria pedir a cabeça do candidato. Mas quando a política entra na era do "caixa 2 de campanha todo mundo faz" ou do "o valerioduto deles é igual ao nosso", aí esqueça.

A sociedade em geral, acredito, também prefere a hipocrisia. Veja por exemplo o caso do mensalão (o federal). Lula se saiu com um "eu não sabia de nada" hipócrita. Se ele tivesse falado "fiz mesmo e faria de novo", a cabeça dele estaria rolando nos editoriais e nas seções de cartas do leitor. Já vejam o caso do PSDB. Os discursos que mais incomodam são aqueles defendendo o Azeredo, porque nele a hipocrisia já não existe, não há a condenação da corrupção. Só o FHC têm dito que se o crime foi cometido tem que ser punido. Na história do mensalão todo, quem está "sangrando" (pra usar um termo que a oposição gosta de usar) é o PSDB ao deixar um corte chamado Azeredo aberto, sem fazer uma assepsia. Não precisa nem expulsá-lo do partido. Basta pedir que ele renuncie ao mandato e fique na geladeira por 1 ano - o tempo de memória do eleitor. Ou faça como Renan, peça licença.

Outro exemplo é a CPMF. Pode-se acusar o PSDB e o DEM de estar sendo hipócrita, afinal foram eles que aprovaram a CPMF. Verdade. Mas o problema principal aqui não é a hipocrisia, é o imposto! Dane-se se eles estão sendo hipócritas. Agora eles estão sendo contra o imposto e é isso que importa, porque este imposto é um dos impostos mais injustos já criados.

Prefiro os hipócritas aos abertamente imorais.

3 comments:

  1. Como e bom encontrar pessoas que, assim como eu, acho o PHA um ser tao merda....

    Parabens pelo blog!!

    Arthur-RJ

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  2. Perfeito. Seu pensamento tem tudo de Maquiavel. O negócio não é ser é parecer, isto é, o que importa é o resultado pragmático.

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  3. Putz.

    Eu tava com medo que o tom do texto fosse esse. Eu não quis dizer que o que importa é parecer e não ser. Ser é extremamente importante, mas é importante parecer também, porque é isso que gera pressão nos que não são, à sua volta.

    Ser é importantíssimo, parecer é importantíssimo. Maquiavel gostava de colocar "ser" e "parecer" em oposição... para ele é necessário ao governante não ser e parecer para exercer uma boa liderança. Discordo. Acredito que é possível e muito mais útil ser, liderar pelo exemplo mesmo.

    Mas dado o estado das coisas, e no contexto da política, eu tentei estabelecer um critério entre o que é melhor, a hipocrisia ou a imoralidade aberta. Entre os dois, o primeiro é infinitamente melhor...

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