Sunday, January 27, 2008

O tênue balanço entre a vida e a morte (nas células)



Um dos fatos mais interessantes que eu aprendi no mundo das vias de sinalização bioquímicas (signaling pathways) são as mutações que são capazes de transformar uma célula em cancerosa, e as diversas formas que o organismo tem de executar tais células. E de como matar essas células é importante para o resto do organismo.

Células são sistemas bastante ativos, com a capacidade de se comunicar com o meio ambiente e com outras células, além de se auto-regular. Entre outras coisas incríveis que células são capazes de fazer, temos leucócitos que perseguem bactérias através do rastro que as bactérias deixam. Temos também células nas gônadas que, em resposta a estímulos externos, fabricam hormônios sexuais. Ou células epiteliais que se reproduzem ou não de acordo com ordens dos vizinhos. Um último exemplo, já de auto-regulação, é o fato de que células, quando detectam um defeito no próprio DNA, podem segurar a mitose/meiose até que o DNA seja concertado. Em alguns casos, uma alteração genética é capaz até de disparar um sistema de morte celular programada (apoptose).

Esse último caso é justamente o que mais me impressiona. O câncer, simplificando ao extremo, é um grupo de células que "se revolta" e começa a crescer de forma muito rápida e desproporcional. Isso drena os recursos do resto do corpo além de ocupar fisicamente espaços e invadir outros órgãos. Para que um grupo de células passe a agir dessa maneira, é preciso que a célula passe a querer se reproduzir a uma taxa mais alta do que o normal. É preciso, portanto, uma mutação que dispare o crescimento descontrolado, o que é esperado.

Mas uma outra coisa que é preciso acontecer é que as células também precisam ser capazes de ignorar o sistema que manda elas morrerem! Isso eu acho incrível. Mutações em uma proteína, a p53, que é uma das mais centrais nas vias de sinalização de apoptose, por exemplo, estão presentes em cerca de 50% dos casos de câncer, de acordo com uma estatística que uma professora daqui me mostrou. A proteína que funciona bem p53, ao perceber que algo não está certo com o DNA da célula, é capaz de segurara reprodução. Em alguns casos ela segura a reprodução pra sempre. E às vezes, ela até manda a célula se suicidar! Já o p53 mutante é incapaz de reagir a uma alteração do DNA e o câncer se forma.

É interessante como para que o organismo precise viver, é preciso que as células se comportem. Mas como, por entropia, é impossível para um sistema com tantas células manter uma disciplina, é necessário também um mecanismo repressor de rebeldes. A apoptose. Vale notar que esse mecanismo também é utilizado por governos totalitários com bastante freqüência!

4 comments:

  1. Eu me lembro de ter lido, em um dos Phisycs News Update que as células cancerosas só conseguem se reproduzir uma única vez (se multiplicando desordenadamente), mas contaminam as células adjacentes com essa "doença de reprodução descontrolada". O estudo dizia ter aplicado, com sucesso, um laser nas células periféricas ao câncer, matando as contaminadas e as passíveis de contaminação. Isso, entre outras coisas, não só frearia o crescimento do tumor, como cauterizaria os vasos que alimentam as células doentes, matando-as por inanição.

    Eu não consigo perceber bem a diferença entre este procedimento e a extirpação total do tumor, a menos que esse laser pudesse ser calibrado para uma determinada proteína característica das células cancerosas e que fosse identificada como agente do contágio das vizinhas.

    Mas essa revelação de que a célula contaminada só se reproduz uma única vez é bastante curiosa.

    ReplyDelete
  2. Bom, essa é a diferença entre a teoria e a prática.
    A p53 é uma velha conhecida em termos de tumor.
    O problema é saber quando ela está funcionando de maneira anômala. E em que quantidade isso é significativa.
    Agora quanto a extirpar o tumor, acho que somente vendo uma vez o que é um câncer inoperável para se ter noção do que se trata.
    Especificamente deste trabalho, não li para comentar mais profundamente. Mas acho muito simplista apenas matar as células da periferia para resolver o problema.

    ReplyDelete
  3. Eu não sei conheço exatamente este trabalho que o João citou, mas eu me lembro de ter visto uma vez um trabalho de um grupo que estava tentando fazer radioterapia guiada para tumores "organizados" (que tinham vascularização meio ordenada) e os caras tinham que fazer uma ginástica para conseguir acertar a lesão. Não deve ser realmente muito fácil de acertar só a periferia.

    Mas o problema é que às vezes, mesmo com a lesão retirada, o paciente tem reincidência. Ou então o câncer entrou em metástase. Isso complica bastante a situação!

    ReplyDelete