Sunday, February 24, 2008

Correndo o risco de ser atacado...

O blog do Adilson Oliveira traz um post metendo o pau em uma nova revista científica criacionista sendo lançada. Pra ser justo, ele apenas ecoou a notícia que saiu na Nature sobre a tal revista, que se chama "Answers Research Journal". Já o Carlos Hotta botou um post bem humorado sobre como a Lei de Murphy contraria a teoria da evolução. Eu mesmo no post sobre as sementes de banana sacaneei o vídeo que abaixo:



É um tema comum na blogosfera científica atacar os movimentos não científicos. Os melhores e mais famosos blogs do nosso mundinho, tanto em português quanto em inglês, atraem público em grande parte por trazer este debate. Mas apesar de isso ser bastante divertido e, principalmente, fácil, eu considero esta uma atividade idiota, quando não contraproducente. E eu sou tão culpado por essa prática quanto o blog vizinho.

Mas antes de elaborar em cima das questões acima, um pouco de nomenclatura. Vamos chamar no resto deste texto "criacionismo" o movimento que prega a idéia de que o mundo foi criado da forma como é hoje, em contraposição ao "evolucionismo" a idéia de que a vida evoluiu de um ser vivo para o outro. Vamos também colocar o "design inteligente" em contraste com o "aleatorismo"; no primeiro tem uma força que guia o processo evolutivo enquanto que no segundo, tudo ocorreu ao acaso. Não vou usar o termo "darwinismo" aqui porque, ao contrário do que pensa Olavo de Carvalho, o debate que interessa não tem nada a ver com Darwin. Darwinismo se contrapõe ao lamarckismo e os dois apontam na mesma direção: a idéia da evolução.

A separação que eu fiz aí em cima é bastante útil porque ela separa os dois aspectos filosóficos deste debate: o aspecto científico e o aspecto metafísico. É verdade que virtualmente todo criacionista também acredita no design inteligente, assim como todo aleatorista segue a evolução. Há também os que estão no meio de campo: evolucionistas que acreditam numa evolução guiada, no princípio do design inteligente.

Veja que o debate científico nesse sentido é ponto pacífico. Ninguém sério debate a idéia de que existiram dinossauros ou de que as diversas espécies evoluiram umas das outras. Tem sempre os toscos que tentam defender a idéia de que o universo foi criado há 6000 anos e que não somos macacos, mas esses toscos são tão perigosos para a sociedade, ou para a ciência, quanto os toscos que defendem a idéia de que o verão é quando o Sol está mais perto da Terra, que a relatividade está errada porque dá pra ir mais rápido que a luz ou que o homem nunca foi pra Lua. Esses caras pensam do jeito que pensam porque eles não aceitam a ciência em primeiro lugar. E isso é um direito humano: o direito à burrice. Direito crucial aliás. Mas querer debater com esses caras é o equivalente futebolístico à seleção brasileira querer jogar contra o time do bairro. É facílimo de ganhar, mas nada de útil pode sair da partida.

A razão pela qual o debate é contraproducente se deve à segunda linha do debate, a linha metafísica. A polarização e as associações quase Pavlovianas entre evolucionismo e aleatorismo, criacionismo e design inteligente, despertadas pelo debate no plano científico acabam sendo percebidas pelo público desengajado como sendo uma luta entre ateus e religiosos. O que está longe de ser verdade, afinal não existe motivo filosófico ou material para negar a possibilidade de que existe um Deus guiando todo o processo, em oposição à idéia de que tudo é sem querer. E isso é ruim para a ciência. Porque, apesar do que gostam de falar alguns cientistas como Dawkins, a metafísica, em particular a teológica, é extremamente importante para os cientistas também. Se por um lado é verdade que o método científico exige da formulação experimental o rigor racional e ateu, a criação de novas hipóteses normalmente ocorre em função de uma mística interna do cientista, seja ela uma mística religiosa, intuição experimental ou uma busca ateísta. Queremos ter no nosso "time" a maior diversidade possível de correntes metafísicas, já que isso fatalmente trará mais frentes de ataque no horizonte de expansão. Afugentar os religiosos da ciência porque eles acreditam que um Deus ou uma força guia o universo é um erro gigantesco.

Devemos, sim, afugentar os que querem negar experimentos repetidos um bilhão de vezes. Mas é importante lembrar que a ciência se construiu nas costas de religiões e que ela, de maneira alguma, se opõe às crenças internas de seus membros. Muitos cientistas formidáveis que eu conheci na minha vida são pessoas religiosas que, apesar de serem diferentes em crença, são pessoas extremamente inteligentes com quem eu aprendi muito. O motivo pela qual a ciência não é uma religião é que ela não exige dos seus membros um estado mental ou uma unanimidade de opinião. A única coisa que a ciência pede é honestidade com os experimentos, com a natureza.

10 comments:

  1. Tem um amigo que sempre diz:

    "A gente pode discutir de tudo, só não vale ser desonesto!"

    Acho que você está certo e essa é a idéia que nós deveríamos reforçar nesta questão de DI e aleatoristas: as discussões devem acontecer sem tirar coisas do contexto ou usar experimentos feitos por um só grupo e publicados e revistas quase desconhecidas.

    ReplyDelete
  2. Muito bem colocado, Shridhar!... Eu - que sou assumidamente místico - me irrito profundamente com as argumentações tipo "me prove que existe"... Ora, bolas!... Não é uma questão de "provar" coisa alguma!...

    O que eu não engulo no ID é que seus defensores podem até estar certos, mas pelos motivos errados...

    ReplyDelete
  3. Apoiado, Shridhar. Acho que dar a entender para o publico que um estudante não pode receber seu diploma de PhD se não assinar antes um documento declarando ser ateu de carteirinha é uma péssima estratégia de Dawkins. Por que perderiamos ótimos cerebros, e acho que o que a ciencia precisa é das melhores inteligencias, nao dos melhores ateus (que podem ser cientificamente mediocres). Agora, nao acho que o pessoal das pseudociencias seja tao inofensivo assim: basta verificar a deriva progressiva da SuperInteressante em direção ao esoterismo: como os leitores podem ter critério pra separar entre as reportagens cientificas que ainda estão lá, e o blá, blá, blá new age ou criacionista? Mas concordo que os blogs ceticos, que nasceram como uma reação à dominacao cultural da new age, por sua vez despertam reações de repulsa, num circulo vicioso ou corrida armamentista intelectual. Acho que os ateus estão lutando por sua propria sobrevivencia, mas provocar a onça com vara curta não parece ser muito racional.

    ReplyDelete
  4. Quanto ao embate ID versus Aleatorismo, no caso da Cosmologia eu identficaria ID com Principio Antropico Forte, e Aleatorismo com String Landscape (10^500 universos fisicamente realizados, estamos num deles que puramente ao acaso permite sistemas complexos. Uma alternativa no meio do caminho, mais economica (pelo menos em numero de Univeros, navalha de Occan neles!) é o Darwinismo Cosmologico de Smolin: por um processo de universos gerando universos bebes via buracos negros, as propriedades dos universos vao se ajustando lentamente otimizando a produção de estrelas (e buracos negros), aumentando a taxa de reproducao dos universos. Vc conhece? Assim, nosso universo nao seria fruto do acaso, mas de uma longa evolucao de universos por seleçao natural. O Darwinismo Cosmologico Forte (DCF)imagina que tecnobioferas cosmicas produzem universos-bebes em laboratorio, e que portanto universos com tecnobioferas possuem maior fitiness que universos sem as mesmas. Ou seja, o DCF é tipo ID (designio inteligente feito por uma tecnobiosfera ou mente do universo mae), mas esse Deus (ou Deusa) não é oniciente, onipotente ou imortal. Queria sua opiniao: o DCF é uma visão naturalista ou religiosa do mundo?

    ReplyDelete
  5. Bom... O Osame pediu a opinião do Shridhar, mas eu vou dar a minha: esse "Deus" é bem mais plausível...

    ReplyDelete
  6. Talvez a pergunta pudesse ser posta nos seguintes termos: uma mitologia que faz com que deuses (inteligencias criadoras supra-humanas eventualmente com capacidade de forjar universos) emerjam a partir de um Caos Universal pre-existente (ou seja, os Deuses foram criados por um processo aleatorista sem proposito) é uma visão ateista ou teista? Parece ateista, pois os Deuses surgiram ao acaso e sem proposito. Mas no caso do nosso universo particular, existiria um Deus(a) criador para este universo, e portanto o nosso universo local poderia ter um "proposito" (definido por este Deus finito). Lembrar que, segundo alguns, se a humanidade um dia constituir uma super biosfera na galaxia, talvez ela tenha o poder de criar tais universos-bebes (um artigo do Weinberg mostra que essa criacao poderia ser feita comprimindo-se 1 Kg de massa no diametro de um proton, para se criar um falso vacuo, ou seja, talvez um dia seremos deuses criadores...). Neste caso, tais universos poderiam ser fruto de uma engenharia "genetica", com um fine tuning das leis e constantes fisicas melhoradas em relacao ao nosso universo, ou seja, ainda mais favoraveis à vida, o que catalizaria o processo. Mas... universo bebe fruto de engenharia cosmologica não é exatamente Inteligent Design????

    ReplyDelete
  7. Não que o que tenho discutido seja ciencia: é filosofia, ou melhor ainda, especulaçao científica (que não deve ser confundida com ciencia: especulação cientifica é um discurso compativel com a ciencia, mas não testável por enquanto)... Em 1996 escrevi parcialmente um paper sobre o Darwinismo Cosmologico e sua analogia com o Jogo LIFE de Coway. Meu orientador disse que era "ficção cientifica". Se alguem quiser uma copia, posso mandar...

    ReplyDelete
  8. Haha. Eu não tenho muito como opinar porque eu não conheço mesmo essas teorias. Honestamente, eu acho elas pouquíssimo plausíveis,me parece um roteiro de ficção científica saído de um misto de 2001 com Men in Black. Mas, insisto, não conheço nada dessas teorias pra sair sendo tão duro com elas!

    A minha opinião é de que especulação científica opera exatamente no mesmo plano da teologia: a única diferença é quem gera a metafísica. Em outras palavras, a versão científica usa elementos de experiências repetitíveis e argumentação estritamente lógica para extrapolação do conhecido, enquanto que a teologia costuma utilizar elementos da tradição humana e experiências pessoais para moldar a filosofia.

    Mas por conta disso é muito complicado diferenciar o que é teísmo ou o que é ateísmo quando se trata de um exemplo como o seu. Na estrutura profunda os dois são reflexos da mesma coisa: a necessidade de compreender o incompreensível. De certa maneira, o próprio ateísmo é também uma religião, uma nova religião iconoclasta.

    Dito isto, concordo inteiramente com você. Aliás, isso que você descreve não é nada mais do que encaixar um Design Inteligente afastado da tal mística. E esse é um caminho que segue um teísmo do estilo grego, ou mesmo indiano. Deuses limitados, de natureza conhecida.

    ReplyDelete
  9. Sobre o problema da SuperInteressante... Esse não é um problema da ciência. É um problema de governo, de sociedade. Aliás, não sei nem se é problema.

    Jornalismo tradicional vende pra quem quer comprar. No Brasil, as pessoas gostam muito mais de comprar uma capa falando sobre astrologia ou sobre maconha do que uma capa tratando de coisas mais sérias. Se a Super quisesse esmurrar prego, poderia, mas existe um limite de ação da imprensa sobre o mercado. Você não consegue forçar seu público a ler o que ele não quer de forma nenhuma. Veja lá o fato de que a Galileu também perdeu qualidade nos últimos tempos. É triste. Eu sou de uma geração que se formou através da Enciclopédia Conhecer e da SuperInteressante e digo que estes foram elementos importantes das escolhas de minha carreira. Mas olha, essa degradação é comum no mercado editorial brasileiro porque o brasileiro médio não quer ler, não quer ser uma pessoa mais culta, confunde cultura com entretenimento e não paga por cultura, até porque todo o dinheiro excedente fica com o estado através de impostos. E as tentativas do governo só conseguem ser mais toscas (vide TV Brasil, Lei Rouanet, propagandas do governo em jornais e revistas... e agora na internet).

    Digo que é um problema de sociedade porque... Eu aqui assino a Scientific American. Eu também lia (o que eu entendia...) a Scientific American americana quando criança, meu pai assinava. E eu vejo que a Scientific American moderna ficou um saco porque agora só fala de aquecimento global e de como os criacionistas são bobos e feios. A coluna principal costumava ser do Martin Gardner, agora é a do Michael Scherner. Digo, ainda tem muita coisa legal na revista, é a forma mais fácil de ficar por dentro do que se passa nas outras áreas. Mas a comunidade científica americana agora só quer saber dessas coisas e é isso que a revista vai fornecer principalmente.

    Dê tempo ao tempo e até a Scientific American Brasil (que eu pessoalmente nunca li, mas creio que a qualidade seja boa) vai ficar do nível da Super.

    Se a fórmula americana estiver certa, o que é preciso é devolver o dinheiro na mão das pessoas (cortando impostos), dar uma estabilidade política (sem essa de ficar dando golpe, mudando a constituição a cada 5 anos, etc...), reprimir a violência e deixar a sociedade agir por conta própria para produzir sua própria cultura. É uma questão de deixar os indivíduos agirem como indivíduos e não querer tratar os homens como rebanhos que precisam ser guiados.

    ReplyDelete
  10. Shridhar, o link para um livro sobre DCF é:
    http://www.amazon.com/Biocosm-Scientific-Evolution-Intelligent-Architect/dp/1930722265/ref=sr_1_2?ie=UTF8&s=books&qid=1204147226&sr=1-2

    Um link para o status atual do Darwinismo Cosmologico Fraco é:
    http://arxiv.org/abs/hep-th/0612185

    The status of cosmological natural selection
    Authors: Lee Smolin
    (Submitted on 18 Dec 2006)
    Abstract: The problem of making predictions from theories that have landscapes of possible low energy parameters is reviewed. Conditions for such a theory to yield falsifiable predictions for doable experiments are given. It is shown that the hypothesis of cosmological natural selection satisfies these conditions, thus showing that it is possible to continue to do physics on a landscape without invoking the anthropic principle. In particular, this is true whether or not the ensemble of universes generated by black holes bouncing is a sub-ensemble of a larger ensemble that might be generated by a random process such as eternal inflation.
    A recent criticism of cosmological natural selection made by Vilenkin in hep-th/0610051 is discussed. It is shown to rely on assumptions about both the infrared and ultraviolet behavior of quantum gravity that are very unlikely to be true.

    ReplyDelete