Sunday, May 29, 2011

A importância do caderno de laboratório

Kottke's Awesome Lab Notebook por Mouser NerdBot



Nos últimos dois anos, eu tenho trabalhado ativamente com Biologia Molecular e Genética em bactérias. Essa atividade contrasta imensamente com o tempo em que eu trabalhava detrás de um computador, gerando simulações e resolvendo equações, ou num passado mais remoto, escrevendo programas de computador. E uma das coisas que eu tive que aprender foi manter um livro de notas extremamente organizado. Eu era razoavelmente organizado antes de começar a mexer com as minhas bactérias, mas o nível de organização aumentou bastante a partir do momento em que eu tive que passar a debugar meus experimentos. Isso porque, diferente de encontrar erros num código ou num sistema de equações diferenciais ordinárias, por mais controle e precisão que eu imponha, cada iteração em um laboratório é um evento diferente (e trabalhoso) e é preciso saber o que exatamente eu fiz pra descobrir e evitar incorrer nos erros cometidos e, nos raros momentos em que o experimento funciona, é preciso saber exatamente o que eu fiz pra poder estabelecer um protocolo. Exatidão tanta que minha memória já não é mais confiável. Esse cuidado com a manutenção do caderno de laboratório foi essencial no trabalho do prêmio Nobel de medicina Paul Ehrlich, em sua invenção da droga Salvarsan, no começo do século XX. A droga,  utilizada na cura da sífilis até a descoberta da penicilina, recebeu o nome químico arsefamina. Mas no laboratório, a droga era conhecida como composto 606.

Ehrlich, além de inventar a droga, foi um dos pioneiros na implementação de métodos de linha de produção em laboratório. Seu centro de pesquisas (Institut für experimentelle Therapie) nasceu do centro prussiano que controlava a qualidade das vacinas contra difteria que eram distribuídas no país. Esse centro, além de produzir vacinas, era responsável pelo controle de qualidade, tarefa que exige um nível organizacional elevado. Cada lote do soro tinha que ter sua eficácia testada em animais e o resultado de cada experimento tinha que ser registrado. Era também necessário saber o lote e o destino de cada remessa de maneira que, em caso de falhas, ficaria mais fácil traçar a origem de potenciais problemas. Para atingir tal nível de organização numa era pré-SQL, o instituto introduziu um sistema de númeração de experimentos e lotes e remessas e documentações. Ehrlich manteve esse sistema também no seu centro de pesquisas. Chefe de vários cientistas e assistentes, ele utilizava um sistema eficiente e bem documentado de comunicação, no qual ele recebia os cadernos de notas numerados de seus funcionários e devolvia com notas seriadas indicando a direção em que ele gostaria de prosseguir.

Como pesquisador, Ehrlich investigava a possibilidade de usar corantes biológicos na síntese de novas drogas, num mecanismo que pode ser considerado um precursor do conceito de "drug delivery". A utilidade desses corantes em microscopia derivava da grande afinidade entre o componente e as bactérias. A idéia era a de associar toxinas a alguns corantes com o objetivo de aumentar a concentração local da toxina próximo às bactérias. Esse esforço sintético exigiria um esquema caótico de associação entre os vários corantes e toxinas. Para botar um pouco de ordem Ehrlich utilizou, novamente, sua idéia de ordenação.

Referências
  1. Seriality and Standardization in the Production of "606", Axel C. Hüntelmann, History of Science  48, 2010
  2. The farmacology of Arsephamine (Salvarsan) and Related Arsenicals, Carl Vöegtlin, Physiological Reviews 5, 1925
  3. Wikipedia on Salvarsan
  4. Chemical & Engineering News article

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