Friday, May 27, 2011

O ensino opressivo

Houve um barulho recente em torno do livro de português com erros de ortografia fornecidos pelo MEC. O absurdo do fato é tamanho que em um cenário normal não valeria a pena nem comentar. Mas dado o estado das coisas atual... Justifica-se a existência deste livro com base na teoria de que nossa língua é uma língua viva e que portanto o ensino de um registro mais formal e distante do registro oral dos alunos pode aliená-los. Essa idéia tem raiz na pedagogia paulo-freiriana (extremamente bem desconstruída aqui). Uma raiz claramente idiota mas que por se encaixar bem no sistema opressor/oprimido adorado pela intelligentsia acabou sendo aceito como uma boa idéia.

O problema do modo Paulo Freire de ensino é que ele cria uma sala de aula com alunos e professores apenas. Não sei se ele nunca pisou numa sala de aula ou se ele levou o relativismo a sério demais; fato é que há uma abstração impressionante do conhecimento. Só assim pra se acreditar que o papel do professor ideal é somente o da mediação e que os alunos devem aprender buscando elementos em torno dele mesmo; e que qualquer apelo à autoridade que o professor utilize passa a ser opressivo. O ridículo dessa proposta fica evidente numa rápida análise da evolução da história própria do conhecimento. A compreensão dos números imaginários, por exemplo, aconteceu pelo menos 2 mil anos após a invenção da raiz quadrada. Deveríamos por acaso esperar todo esse tempo pro aluno poder usar números complexos no cálculo de versores e poder fazer um cálculo simples de impedância? No caso das ciências humanas, essa questão pode ser um pouco mais obscurecida, uma vez que é mais fácil adotar uma postura anti-realista. Mas o problema existente aqui é o mesmo nas ciências exatas.

O objetivo do ensino público de massa é transformar pessoas em seres socialmente produtivos. Ensinamos matemática, não para que a criança tente entender o sistema místico pitagórico dos números inteiros ou tente provar a hipótese de Riemann, mas para que ela possa operar um caixa, fazer um balanço e entender sua conta bancária. Não ensinamos física para que a criança apreenda a beleza da teoria das super-cordas, mas sim para que ela entenda o que significa a energia que vem da tomada ou como funciona uma alavanca. Não ensinamos a língua portuguesa para que a criança se transforme num multi-lingüista ou crítico literário, mas que ela possa ler livros e jornais e escrever currículos e e-mails. Ao contrário do que pensa a intelligentsia, o ensino não está tentando libertar a criança das garras da sociedade capitalista, mas sim transformando ela numa peça útil da engrenagem social.

Lógico que alguns desses alunos prosseguirá na educação e se tornará um intelectual. E neste nível superior de ensino sim, faz sentido uma educação mais (argh) crítica, voltada à formação de pessoas capazes de provar (ou desprovar) a hipótese de Riemann, analisar novelas ou trabalhar num acelerador de partículas. Mas mesmo estes só serão capazes de contribuir nessa capacidade a partir do momento em que elas entendem o estado corrente do conhecimento, e para atingir este estado há ainda um aprendizado "opressivo".

Para ensinar seu discípulo, o senhor Miyagi fez Daniel-san pintar a cerca e encerar o carro. E essa "opressão" brutal foi exatamente o que preparou o jovem aluno a vencer o torneio. O ensino funciona mais ou menos da mesma maneira. Se "oprime" dentro de sala de aula para que o jovem seja capaz de enfrentar o mundo real. Mundo esse que nunca vai contratar uma pessoa com um currículo que diz "nóis trabalhou como boy na úrtima firma" na lista de experiências.

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