Saturday, June 04, 2011

Homogenização dos erros

Uma das críticas ao zeitgeist brasileiro que Olavo de Carvalho faz é o fato de que ninguém discute as coisas em si, apenas aspectos isolado das coisas que podem ser totalmente irrelevantes ao assunto. Eu extenderia o ponto para além das discussões: as ações em geral se movem de maneira similar.

Um exemplo gritante disso é a reação histérica aos erros de matemática presentes em um livro didático. Ora, isso aí está vindo na cola do fiasco em torno do livro que ensina português errado, que está entre os elementos que levaram Reinaldo Azevedo a iniciar sua campanha fora Haddad. Até o próprio Reinaldo "editorializou" sua crítica no título do clipping.

O problema é que os dois fenômenos são de natureza completamente diferente, ao menos de acordo com o que consta nas notícias. O livro de português com erro sofria de um problema ideológico. O livro ensinava português errado DE PROPÓSITO. Um erro numa linha de um livro de matemática ensinando "10-7=4" é infinitamente menos grave uma vez que o livro NÃO ESTÁ TENTANDO ALTERAR A MATEMÁTICA. É um erro, uma coisa que um professor em sala de aula pode corrigir facilmente, ou mesmo um aluno enxergaria com um esforço pequeno. Seria uma história completamente diferente se o discurso no livro fosse dizer que 10-7=3 é a norma culta, mas não é sempre assim e às vezes 10-7=4 acontece quando você erra a conta e não tem nada de errado em errar a conta.

Livros contém erros. Eu mesmo me lembro de vários livros didáticos contendo erratas, inclusive livros de história e geografia e nem por isso os livros precisaram ser jogados fora. Há até o caso do livro do Knuth que encoraja leitores a encontrar erros: o livro todavia é um dos grandes clássicos da ciência da computação. A solução no caso do livro de matemática do MEC não é corrigir e reenviar gastando mais 14 milhões de reais para reenvio. Acho que é mais barato mandar um fax ou uma circular pra cada uma das escolar aferindo o erro.

Mas o mais grave aí não é o custo do erro, porque dinheiro no fim das contas é só dinheiro*. O problema é que essa reação é um sinal do esvaziamento da discussão em torno da pedagogia que o primeiro evento havia gerado. A questão que inicialmente era "será que devemos considerar variantes populares do português e ensiná-las?", através desse passe de mágica do MEC se transformou no imperativo "devemos eliminar TODOS os erros de TODOS os livros". O que é uma variante do argumento homogenizador do "todo mundo faz"que o PT adora utilizar pra justificar sua corrupção. Fica fácil agora para os aloprados do MEC argumentarem que é difícil evitar erros e que o primeiro erro não foi má fé e para os autores do livros dizer "erros todos os livros contém".

*aliás, medidor de sarcasmo, por favor; o link leva a um texto obviamente idiota

3 comments:

  1. Shridhar, duas considerações, uma de ordem gramatical: é "estenderia" na 2a. frase do 1o. parágrafo.
    A segunda é sobre o erro do livro. Erros podem passar, embora um livro didático tenha que ter meticulosa revisão. Porém o erro não foi apenas o 10-7=4, há outros erros dessa ordem, além de erros grosseiros. O próprio ministro admitiu que uma errata não serviria nesse caso.
    Link para a matéria do Estadão
    http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110604/not_imp727826,0.php

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