Thursday, September 22, 2011

Quem é anti-anti-corrupção é o quê?

Esse texto de Alex Castro Papo de Homem, criticando o movimento anti-corrupção é uma pérola. Por trás de sua aparente genialidade e meta partidarismo, falta ali um mínimo de senso auto crítico.

O texto é curto, mas se vc tá com preguiça a essência é simples. Quando você está tomando partido em alguma causa, verifique se a causa oposta existe e é defensável. A pergunta é a seguinte: se você é contra a corrupção, pergunte-se se alguém é a favor. O autor também enfia uma discussão sobre ideologias e incapacidade de isenção, o que me parece um esbirro de alguém que descobriu o conceito ontem. Mas ironicamente, está aí o maior defeito do próprio texto. Ele é tão ideologicamente carregado que se esquece do ponto principal - um que eu inclusive concordo - e ataca preguiçosamente os religiosos, os conservadores e a revista Veja.

Os exemplos que ele usa são bem estúpidos. Os partidários pró-vida tem sim um inimigo na luta, as pessoas pró-aborto. Pra quem é pró-vida, os abortistas são sim pró-morte. Assim como quem é contra a pena de morte seus adversários de assassinos estatais, e os anti-guerra acusam seus rivais de genocidas. O mesmo vale para os pró-família. Estes acreditam que o casamento gay irá destruir a família. O fato de que o autor pensa que esses dois movimentos não teriam um contraditório e que na realidade tem apenas como objetivo "restringir direitos de gays e mulheres" não torna o discurso em torno dos tópicos vazio, apenas revela a ideologia do autor. Coisa que fica mais evidente ainda quando ele ataca a Veja por criticar anti-capitalistas. O que é que isso tem a ver com a tese dele, a de que a causa dos anti-corrupção é vazia?

O que mais cansa minha beleza nesse texto é o parágrafo sobre aqueles que tentam se situar acima de todas as ideologias. Vou até "clippar":
Quem reclama de não aguentar mais “tanta ideologia” não é um livre-pensador descompromissado e apolítico tentando formar suas próprias opiniões, mas sim uma pessoa mentalmente preguiçosa e de cabeça fechada, que só gosta de se expor às opiniões com as quais já concorda e que se sente extremamente incomodado quando exposto à opiniões diferentes.
Essa parte do texto é claramente pró-ideologia. Ele encoraja as pessoas a terem uma ideologia. Não ter uma ideologia, diz ele, é errado. Uai, mas não é a ideologia a fonte de batalhas por causas vazias? Não é a ideologia da Veja, dos religiosos e dos conservadores que geraram as lutas que ele critica? O problema é que ele quer que as pessoas tenham apenas ideologias que ele considera válidas e isso apenas inclui a ideologia dele ou pequenas variantes.

Isso é porque ele ainda não passou do desconstrucionismo e ainda não aprendeu que causas específicas surgem das ideologias. A luta contra o capitalismo só existe no contexto socialista. A luta pelos direitos reprodutivos da mulher só existem no contexto do feminismo. Os direitos humanos só existem no contexto humanista. E é por isso que se você considera uma ideologia uma baboseira, seus discursos não farão sentido. É por isso que ele considera ideologias conservadoras fontes de lutas vazias. O resultado dessa falta de auto-análise deu nisso: num texto extremamente ideológico que pretende ser meta-ideológico ele critica aqueles que se dizem meta-ideológicos porque é impossível sê-lo.

2 comments:

  1. Sobre um ponto particular do texto.

    Posso estar errado, mas acho que o amigo não compreendeu bem o trecho destacado ou não o interpretou considerando o restante do texto. Acompanhe o excerto:

    "A ideologia de se achar sem ideologia é uma das ideologias mais disseminadas em nossa sociedade, especialmente entre os bem-nascidos de inclinação conservadora..."

    Ele afirma expressamente que não existe pessoa sem ideologia, de onde, parece-me, no contexto do artigo, não fazer sentido a sua afirmação de que ele "Encoraja as pessoas a terem uma ideologia". Afinal, não faz sentido encorajar as pessoas a terem algo que elas já têm.

    O que ele faz é dizer: Olha, você também tem uma ideologia, trate de reconhecer isso e assuma e exercite o seu papel político, seja ele qual for.

    Não?

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  2. Acho que ao invés de "encorajar pessoas a ter ideologia", eu deveria ter utilizado "encoraja pessoas a aceitar sua ideologia". Mas isso não muda muito a crítica, que foca no fato de que Alex Castro confunde uma porrada de coisas só pra meter pau em conservadores.

    Meu problema com o trecho que eu destaquei é que ele nega a possibilidade de ser sem ideologia e usa isso para criticar aqueles que pensam estar acima de ideologias. A partir deste ponto ele se considera superior aos "bem-nascidos de inclinação conservadora" por que Alex Castro reconhece a própria ideologia.

    Agora, nessa posição superior, ele pode esquecer sua própria ideologia e sair criticando seus inferiores sem nem ao menos considerar que a visão negativa que tem dos movimentos "sem-ideologia" é marcado por sua visão de mundo. Visão de mundo que ele deixa clara através dos exemplos escolhidos.

    No fundo, o que autor disse foi: "Olha, você também tem uma ideologia, mas porque ela é diferente da minha você é um idiota".

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