Saturday, October 01, 2011

Lendo uma pornochanchada

"Se eu fechar os olhos agora", Edney Silvestre. Nota: R 
 

Se há algo de que não me orgulho muito é o meu gosto por pornochanchadas. Esses filmes são horríveis, mas a curiosidade mórbida de acompanhar a corrupção moral dos personagens e o peito gratuito aleatório me fazem colocar no Canal Brasil de vez em quando. Mas assistir um filme desses não é um prazer completo. O problema principal que eu tenho é com a qualidade das falas. Mesmo em um filme baseado num conto interessante, como A Dama do Lotação, os diálogos se sobrepõe de maneira esquisita. Por vezes os atores falam ao mesmo tempo e instantes depois há pausas constrangedoras. A linguagem é esquisita e sempre soa afetada, misturando registros diferentes de maneira maluca. Esse problema me irrita a ponto de me fazer querer mudar de canal em menos de 15 minutos. Mas a vontade de saber quão baixa será a história me faz ir até o final.

Pois essa sensação que eu tive lendo "Se eu fechar os olhos agora", de Edney Silvestre. O livro ficou famoso por conta do escândalo do prêmio Jabuti. Não li "Leite Derramado" para poder dar uma opinão, mas uma vez tentei ler "Budapeste", também de Chico Buarque, e não consegui passar da primeira página, tamanho o pedantismo. Logo, deduzo que o livro de Silvestre seja realmente melhor. Mas não por muito.

"Se eu fechar os olhos agora" conta a história de dois garotos vivendo num Brasil dos anos 60 que encontram uma vítima de um assassinato e resolvem investigar o caso. Rapidamente eles se aliam a um velho comunista e juntos descobrem uma conspiração política envolvendo uma linhagem de estupros, incestos e perversões sexuais que nem Nélson Rodrigues teria pensado. Um roteiro intrigante que, se bem executado, seria uma boa leitura.

Mas o livro peca pela falta de foco e por isso se perde. O autor poderia focar no crescimento dos garotos. Ou nos complexos de culpa do velho comunista. Ou na brutalidade e perversão sexual dos personagens. Ou ainda no cenário político e nos conflitos raciais da história. Mas ao invés disso, o autor esterotipa tudo e acaba perdendo força narrativa. Os garotos são "Meninos de Engenho" moralizados, o velho comunista é uma versão fraca de Luís da Silva ("Angústia", Graciliano Ramos), os poderosos da história lembram coronéis jorge-amadianos abestalhados. E esse problema também ocorre com a ambientação. A violência das cenas soa falsa. Os conflitos raciais forçados. Há uma consciência histórica presciente de quem sabe que o país está próximo de uma segunda ditadura - diversas vezes a redemocratização pós-Vargas é enfatizada. E os diálogos me dão a sensação de que eu estou lendo uma pornochanchada, especialmente nos trechos em que o autor deseja criar um senso de confusão - acaba sendo apenas irritante.

Nem tudo é ruim. O mistério do crime é bem escondido e acaba fazendo o leitor ir até o fim do livro. De todas as personagens, a única que convence é, ironicamente, a morta. O fato de ser a única pessoa no meio de tantas caricaturas acaba sendo uma agradável surpresa - que é precisamente representada na decepção sentida pelo velho comunista.

No fim, o livro é mais relevante por conta do embate atual no cenário político brasileiro. O livro foi escrito por um jornalista da Globo, teve um prêmio "roubado" pela inteligentsia Brasileira, foi utilizado por Reinaldo Azevedo para atacar Chico Buarque... se o Brasil fosse um país onde pessoas lessem livros, este teria sido o queridinho da direita brasileira. Mas não pelo conteúdo - a única coisa que agradaria os liberais brasileiros é a crítica velada a Getúlio Vargas - e sim pelo que ele representa.


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