Admito ignorância imensa no assunto. Até entendo os argumentos dados pelas partes, mas desconheço os aspectos técnicos das obras dos dois autores. Dessa maneira o debate é a forma de mais difícil apreensão pra mim, por conta da velocidade com que os argumentos são jogados. Assim sendo, eu acabei assistindo os vídeos com um lápis e papel na mão anotando os pontos levantados pelos quatro debatedores. Achei que a densidade e o número de pontos levantados foram tantos que talvez algum perdido na internet possa se interessar por minhas notas. Resolvi então compartilhar minhas notas.
Antes, fica aqui um comentário: eu não dei muita bola pros comentários do moderador Guilherme Fiúza. Também não dei muito valor às piadas e instrumentos puramente retóricos utilizados pelos debatedores. Finalmente, apesar de ter parafraseado os argumentos, evitei minhas opiniões ou interpretações do que foi dito. Qualquer erro aqui é por conta de uma falha de compreensão minha, seja por minha ignorância, seja por viés seletivo involuntário.
Jennifer Hermann (início aos 14 minutos do primeiro vídeo): Começa com uma referência a Hyman Minsky como o pensador que fecha a visão de Keynes no que diz respeito a crises da economia. Em seguida separa a crise atual em três crises distintas: a americana, a da europa "central" e a da europa "periférica", que tem etiologias diferentes. Faz uma defesa de Keynes no que diz respeito às suas opiniões com relação à importância das liberdades individuais e bom funcionamento do capitalismo. A diferença entre Keynes e Hayek é a de que um acredita que as liberdades levam a um capitalismo efetivo enquanto que Keynes acredita que uma economia sadia levará a liberdades individuais. Comenta a importância dos "Animal Spirits". Em seguida comenta a teoria de crises de Minsky e de que as crises ocorrem por conta de frustrações de investidores. Comenta que a crise americana é uma crise-mãe enquanto que as outras crises são periféricas e, isoladas não seriam tão problemáticas. O motivo é a falta de segmentação dos mercados bancário e o de capitais. A contaminação causada pelos mercados de capitais gerou uma crise sistêmica. Em contraste, a crise imobiliária dos anos 70 [não encontrei referências] ou a crise do setor imobiliário japonês. A falta de regulação gerou um peso excessivo do mercado de capitais na economia gerou uma crise sistêmica e rápida.
Rodrigo Constantino (início aos 35mins do primeiro vídeo): Comenta a importância da atuação dos Bancos Centrais nas diversas crises. Crises dessa magnitude ocorrem quando há frustração coletiva, não individual e isso só ocorre quando há distorção na economia. Essa distorção acontece sob a forma de impressão de moeda como tentativa de solução para uma crise anterior. O efeito cumulativo da sucessão de bolhas cada vez maiores é perigoso. Como membro da escola austríaca de economia, o problema é a visão da economia através dos dados agregados. Além disso, o uso da inflação como solução é problemático pois a inflação é um instrumento de transferência de renda indesejada. O conceito de "Animal Spirits" é falacioso, nenhum investidor é "burro". E recessões fazem parte de ciclos econômicos, são fenômenos naturais. Crítica o uso da curva de Philips como instrumento econômico. e cita um artigo de Thomas Sowell [não encontrei este artigo]. Já houve um estímulo de 3,5 trilhões de dólares para estimular a economia e isso não foi o suficiente. A teoria econômica keynesiana não pode ser refutada, o longo prazo é uma consideração importante e keynesianos são alquimistas modernos.
Luiz Fernando de Paula (início aos 7mins do segundo vídeo): Crítica da visão "caricatural" do keynesianismo. Por que é que essa crise não aconteceu antes? [eu não compreendi o contexto] Crises são sim endógenas e o keynesianismo deve agir somente durante a crise. A intervenção keynesiana não é puramente expansionista, apenas uma função do estágio do ciclo econômico. O objetivo é buscar um ponto de equilíbrio entre o estado e o mercado. Os cálculos keynesianos não dependem apenas da demanda agregada mas levam em conta a perspectiva de demanda futura. O problema é que informações não são perfeitas o que impede decisões completamente racionais. O que os keynesianos defendem é, utilizando a nomenclatura de Joseph Stieglitz, a importância da estabilidade macroeconômica sobre a estabilidade de preços, que é função de um equilíbrio interno ou equilíbrio externo [o vídeo dá uma explicação mais detalhada a respeito]. O que é importante é que a política fiscal seja adotada como um instrumento anti-cíclico. Em tempos de economia crescente, deve se extrair um superávit, adotar uma política de aumento de reservas. Comenta a opção Brasileira pelo Novo Consenso Macroeconômico mas que há alternativas. Dá o exemplo de China e Índia, como sistemas em que o câmbio é controlado. O que segue é uma série de comentários sobre as opções brasileiras dos últimos 20 anos e diz que o Brasil não sofreu tanto a recessão por conta de manobras que podem ser consideradas keynesianas. Em seguida, faz críticas a medidas tomadas pelo governo com as quais ele não concorda.
Roberto Castello Branco (29 mins do segundo vídeo): Declara-se um seguidor da escola de Chicago e não um membro da escola austríaca. A ênfase a no uso de teorias baseadas em evidências, a importância do capital humano e o uso dos instrumentos de economia para estudar outros comportamentos [a la Freakonomics]. Critica o conceito de "Animal Spirits" por ser mal definido. E crítica Keynes por considerar os mercados como naturalmente instáveis ao contrário dos liberais que consideram os mercados estáveis. Considera o multiplicador keynesiano uma conceito absurdo, dá como exemplo medidas adotas por Obama e usa a idéia de que não existe "free lunch". Não há sustentação teória ou empírica ao multiplicador keynesiano. Do lado empírico, veja como a recuperação de uma crise é lenta independente da presença do estímulo. Quem gera crises são governos. O New Deal não funcionou nos EUA; o responsável pela recuperação da economia foi a Segunda Grande Guerra. No Brasil, as medidas horríveis adotadas por Getúlio Vargas (ações preferenciais, lei de concordatas e falências, CLT) foram medidas keynesianas. Keynesianismo funciona porque dá base teórica para medidas populistas, mas não são eficazes. A base da crise americana foi a liberação do crédito imobiliário como medidas populistas da era Clinton/Bush e esta expansão é a raiz da crise. Na Europa o problema é outro. Crítica ao capitalismo francês, um capitalismo com privilégios. A França é rica e pode arcar com este modelo, mas países menos prósperos como Portugal têm que reduzir os gastos do governo e não tem condições de dar privilégios aos seus trabalhadores como a França faz. O Brasil abraçou o modelo francês. O maior problema do brasil é a falta de infra-estrutura física. O problema tributário do Brasil levará trabalhadores ao setor informal, que é mais ineficiente. A economia cresce exatamente por causa do regime flexível de câmbio, pois este encoraja a produtividade. Cita um trabalho de Sebastian Edwards, da UCLA.

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