Monday, December 26, 2011

Argumentos em Keynes x Hayek no IBMEC

Comecei a ler o livro "Keynes Hayek" de Nicholas Wapshot semana retrasada e espero ter uma resenha aqui no futuro próximo, se eu não ficar com preguiça. Mas anteontem eu acabei me deparando com um debate que aconteceu na Academia Brasileira de Letras sobre o conflito ideológico entre os dois.

Admito ignorância imensa no assunto. Até entendo os argumentos dados pelas partes, mas desconheço os aspectos técnicos das obras dos dois autores. Dessa maneira o debate é a forma de mais difícil apreensão pra mim, por conta da velocidade com que os argumentos são jogados. Assim sendo, eu acabei assistindo os vídeos com um lápis e papel na mão anotando os pontos levantados pelos quatro debatedores. Achei que a densidade e o número de pontos levantados foram tantos que talvez algum perdido na internet possa se interessar por minhas notas. Resolvi então compartilhar minhas notas.

Antes, fica aqui um comentário: eu não dei muita bola pros comentários do moderador Guilherme Fiúza. Também não dei muito valor às piadas e instrumentos puramente retóricos utilizados pelos debatedores. Finalmente, apesar de ter parafraseado os argumentos, evitei minhas opiniões ou interpretações do que foi dito. Qualquer erro aqui é por conta de uma falha de compreensão minha, seja por minha ignorância, seja por viés seletivo involuntário.



Jennifer Hermann (início aos 14 minutos do primeiro vídeo): Começa com uma referência a Hyman Minsky como o pensador que fecha a visão de Keynes no que diz respeito a crises da economia. Em seguida separa a crise atual em três crises distintas: a americana, a da europa "central" e a da europa "periférica", que tem etiologias diferentes. Faz uma defesa de Keynes no que diz respeito às suas opiniões com relação à importância das liberdades individuais e bom funcionamento do capitalismo. A diferença entre Keynes e Hayek é a de que um acredita que as liberdades levam a um capitalismo efetivo enquanto que Keynes acredita que uma economia sadia levará a liberdades individuais. Comenta a importância dos "Animal Spirits". Em seguida comenta a teoria de crises de Minsky e de que as crises ocorrem por conta de frustrações de investidores. Comenta que a crise americana é uma crise-mãe enquanto que as outras crises são periféricas e, isoladas não seriam tão problemáticas. O motivo é a falta de segmentação dos mercados bancário e o de capitais. A contaminação causada pelos mercados de capitais gerou uma crise sistêmica. Em contraste, a crise imobiliária dos anos 70 [não encontrei referências] ou a crise do setor imobiliário japonês. A falta de regulação gerou um peso excessivo do mercado de capitais na economia gerou uma crise sistêmica e rápida.

Rodrigo Constantino (início aos 35mins do primeiro vídeo): Comenta a importância da atuação dos Bancos Centrais nas diversas crises. Crises dessa magnitude ocorrem quando há frustração coletiva, não individual e isso só ocorre quando há distorção na economia. Essa distorção acontece sob a forma de impressão de moeda como tentativa de solução para uma crise anterior. O efeito cumulativo da sucessão de bolhas cada vez maiores é perigoso. Como membro da escola austríaca de economia, o problema é a visão da economia através dos dados agregados. Além disso, o uso da inflação como solução é problemático pois a inflação é um instrumento de transferência de renda indesejada. O conceito de "Animal Spirits" é falacioso, nenhum investidor é "burro". E recessões fazem parte de ciclos econômicos, são fenômenos naturais. Crítica o uso da curva de Philips como instrumento econômico. e cita um artigo de Thomas Sowell [não encontrei este artigo]. Já houve um estímulo de 3,5 trilhões de dólares para estimular a economia e isso não foi o suficiente. A teoria econômica keynesiana não pode ser refutada, o longo prazo é uma consideração importante e  keynesianos são alquimistas modernos.


Luiz Fernando de Paula (início aos 7mins do segundo vídeo): Crítica da visão "caricatural" do keynesianismo. Por que é que essa crise não aconteceu antes? [eu não compreendi o contexto] Crises são sim endógenas e o keynesianismo deve agir somente durante a crise. A intervenção keynesiana não é puramente expansionista, apenas uma função do estágio do ciclo econômico. O objetivo é buscar um ponto de equilíbrio entre o estado e o mercado. Os cálculos keynesianos não dependem apenas da demanda agregada mas levam em conta a perspectiva de demanda futura. O problema é que informações não são perfeitas o que impede decisões completamente racionais. O que os keynesianos defendem é, utilizando a nomenclatura de Joseph Stieglitz, a importância da estabilidade macroeconômica sobre a estabilidade de preços, que é função de um equilíbrio interno ou equilíbrio externo [o vídeo dá uma explicação mais detalhada a respeito]. O que é importante é que a política fiscal seja adotada como um instrumento anti-cíclico. Em tempos de economia crescente, deve se extrair um superávit, adotar uma política de aumento de reservas. Comenta a opção Brasileira pelo Novo Consenso Macroeconômico mas que há alternativas. Dá o exemplo de China e Índia, como sistemas em que o câmbio é controlado. O que segue é uma série de comentários sobre as opções brasileiras dos últimos 20 anos e diz que o Brasil não sofreu tanto a recessão por conta de manobras que podem ser consideradas keynesianas. Em seguida, faz críticas a medidas tomadas pelo governo com as quais ele não concorda.

Roberto Castello Branco (29 mins do segundo vídeo): Declara-se um seguidor da escola de Chicago e não um membro da escola austríaca. A ênfase a no uso de teorias baseadas em evidências, a importância do capital humano e o uso dos instrumentos de economia para estudar outros comportamentos [a la Freakonomics]. Critica o conceito de "Animal Spirits" por ser mal definido. E crítica Keynes por considerar os mercados como naturalmente instáveis ao contrário dos liberais que consideram os mercados estáveis. Considera o multiplicador keynesiano uma conceito absurdo, dá como exemplo medidas adotas por Obama e usa a idéia de que não existe "free lunch". Não há sustentação teória ou empírica ao multiplicador keynesiano. Do lado empírico, veja como a recuperação de uma crise é lenta independente da presença do estímulo. Quem gera crises são governos. O New Deal não funcionou nos EUA; o responsável pela recuperação da economia foi a Segunda Grande Guerra. No Brasil, as medidas horríveis adotadas por Getúlio Vargas (ações preferenciais, lei de concordatas e falências, CLT) foram medidas keynesianas. Keynesianismo funciona porque dá base teórica para medidas populistas, mas não são eficazes. A base da crise americana foi a liberação do crédito imobiliário como medidas populistas da era Clinton/Bush e esta expansão é a raiz da crise. Na Europa o problema é outro. Crítica ao capitalismo francês, um capitalismo com privilégios. A França é rica e pode arcar com este modelo, mas países menos prósperos como Portugal têm que reduzir os gastos do governo e não tem condições de dar privilégios aos seus trabalhadores como a França faz. O Brasil abraçou o modelo francês. O maior problema do brasil é a falta de infra-estrutura física. O problema tributário do Brasil levará trabalhadores ao setor informal, que é mais ineficiente. A economia cresce exatamente por causa do regime flexível de câmbio, pois este encoraja a produtividade. Cita um trabalho de Sebastian Edwards, da UCLA. 


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