Wednesday, December 21, 2011

O eufemismo como arte

"Uma Sombra na Parede", Josué Montello. Nota: MB



Há muito tempo atrás, assisti "Amigas de Colégio" (Fucking Amal/Show me Love), um romance lésbico com duas personagens adolescentes. Eu, também adolescente, parei pra ver o filme porque as atrizes eram bonitas, mas o que fez deste um dos meus filmes favoritos foi a proximidade com as personagens. A maneira como as meninas encaram a atração, o preconceito interno e a frustração de um amor não correspondido é crua e dolorosa. A falta de distância com os personagens gera um desconforto imenso.

Esse texto contrasta com a maneira com que Josué Montello descreve uma situação similar em "Uma Sombra na Parede".  Este livro conta a história de uma moça de uma família afluente e tradicional de São Luís. Ariana, a protagonista, vai percebendo que é atraída por mulheres e não por homens, mas esse processo leva algum tempo. E ao longo de sua trajetória, os desafios de praxe são enfrentados: a devoção católica, medo da reação dos outros, relacionamentos frustrados com homens. Mas a maneira como a história é descrita nos dá uma distância confortável. Torcemos por Ariana e desejamos um final feliz para ela, mas suas dores não nos incomodam tanto quanto as de Agnes, em Fucking Amal. O leitor não vive na pele de Ariana; no máximo é uma conhecida que ouve as histórias através de alguma comadre fofoqueira.

O livro é extremamente bem escrito. Não é um vocabulário preciso ou econômico, mas não é exagerado ou cafona. Se encaixa bem dentro do estilo "neo-realista" que o autor utiliza. Coisa que acho que a literatura brasileira deveria utilizar mais - se Machado de Assis é, ainda hoje, o melhor autor brasileiro, porque não aprender com ele? Gosto também do fato de que o livro não se politiza muito, mesmo sendo este um tema fértil. "O Bom Crioulo", a única outra ficção brasileira que conheço contendo homossexualismo com tema central, força debates raciais, questões de poder e tenta dirigir a discussão levantada na história. "Uma Sombra na Parede" por sua vez, apenas conta uma história, e gera compaixão por todos os personagens, como numa tragédia em que todos morrem e a culpa é dos deuses.

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