Saturday, December 17, 2011

O importante é vencer


A primeira vez que eu inventei de jogar basquete aqui nos Estados Unidos me marcou bastante. Era um "pick-up game", um racha, na academia da Universidade de Michigan. Nada muito exótico. Você vai pra quadra e espera o jogo acabar pra poder entrar no próximo. Eu não sou um jogador excelente  e estava um pouco fora de forma, mas eu também não era o menor cara na quadra nem era tão horrível. Joguei muito pior que todos a minha volta, mas não por falta de habilidade. O problema é que eu não ia com tanta vontade nos rebotes, não arremessava ou passava a bola forte o suficiente, não corria atrás dos "screens". A qualidade que me faltou foi a vontade de vencer.

Qualquer pessoa que me conhecer perceberá que eu não sou exatamente um atleta. Nunca fui. Participei de campeonatos irrelevantes em associações de bairro e ligas de academias. Se houve algum esporte que eu participei em nível competitivo foi tênis de mesa. (Vou dar um minuto para você parar de rir.) Como resultado, eu cresci num ambiente onde a participação no esporte era definida pela expressão "o importante é competir". Saí daquela partida de basquete achando que aquilo ali era muito exagerado e que talvez eu devesse fazer outra coisa.

Pouco tempo depois, comecei a correr. Eu estava estressado com problemas que não saíam da minha cabeça e percebi que correr feito um maníaco me dava 30 minutos de paz por dia. Percebi também depois de 3 semanas que isso detonava o joelho. Achei que isso era porque eu estava fazendo alguma coisa errada, talvez pisando torto, talvez usando um sapato inadequado e pedi conselhos a um amigo meu, corredor de longas distâncias. "Põe um gelo depois de correr. Com o tempo melhora." Eu, cheio de slogans como "importante é competir" e "se dói é porque algo está errado" perguntei se isso não iria causar problemas no futuro. A resposta foi curta: "no pain, no gain". No fim das contas deu tudo certo. Com o tempo a dor passou e eu pouco mais de seis meses depois, eu acabei correndo uma meia maratona. Sim, meu joelho demorou um mês pra voltar ao normal depois da corrida. Mas, pra usar uma outra versão da mesma frase, "dor é a fraqueza saindo de seu corpo".

Essa fábula acabou sendo importante por que me fez enxergar esportes de uma maneira diferente. Eu passei a entender a motivação de atletas em esportes violentos como rugby ou futebol americano, ou ainda esses "loucos" que participam de esportes radicais. Eu mesmo inventei de aprender snow boarding, patinar no gelo pra jogar hóquei e voltei pra quadra de basquete. Eu ainda sou ruim pra caramba. Mas agora eu não paro porque dói ou porque eu estou cansado. Isso se resolve com gelo e cama. Mas não há analgésico pra dor do fracasso. E não há melhor anestésico que o prazer de atingir algo que parece impossível. Mesmo quando o impossível é algo trivial, como fazer aquela uma bandeja no meio de três, patinar de costas, descer a montanha, correr 1km a mais que ontem.

No comments:

Post a Comment