Thursday, December 22, 2011

Uma análise crítica do funk contemporâneo

Montagem (MC Cabide) - "Tá com fome?" 


Essa obra é uma crítica direta e abrasiva ao conceito Keynesiano do estado de bem-estar social que diversos governos implementaram no pós-guerra. O coro que, como no teatro clássico grego representa o povo, fica a reclamar da falta de alimentos como que esperando uma solução milagrosa. A resposta dada aos reclames da população, "pega um sanduíche e come" é um chamado aos populares para que, ao invés de reclamar da fome, que busquem saciar suas necessidades por conta própria. Note ainda que a solução proposta é uma clara referência à frase atribuída à Maria Antonieta ("Que comam brioches") dando uma ambiguidade à solução proposta. O brado libertário ganha uma perspectiva ambígua já que carrega uma conotação de insensibilidade. Note ainda que há uma ênfase na falta de uma solução universal aos problemas do mundo, ou de única solução para um determinado problema. O "sanduíche" é capaz de resolver a fome, mas não a sede. Neste caso é necessário um "copinho de leite" ou ainda um "copinho de suco". Sutil mas genial.

Avassaladores - "Sou foda"


Aqui temos um outro brado libertário, mas que prefere Ayn Rand a Milton Friedman. Ao invés de buscar solucionar um problema social, essa obra salienta o que talvez seja o problema mais pessoal possível: a satisfação sexual. Mas aqui, ao invés de uma solução individual, temos um eu-lírico que se propõe a resolver os problemas utilizando suas habilidades, melhores que a de todas as alternativas disponíveis. A responsabilidade do indivíduo é enfatizada através do aviso ("mas não se esqueça/que eu sou vagabundo") que segue as promessas de prazer. A menção à eternidade ("desde que a putaria começou a rolar no mundo") dá um ar místico, quase espiritual que nos remete à idéia de que a forma do mundo é fixa e o máximo que podemos fazer é aceitá-la.

Mulher Melancia - "Balancê"
 

O conflito gerado pela diferença entre as velocidades do desenvolvimento de novas tecnologias e da difusão destas na sociedade são pano de fundo para esta canção. A educação como mecanismo para cobrir este vão é o instrumento utilizado pela Mulher Melancia, que através de uma música crítico-pedagógica, procura levar às massas ignaras o conhecimento da "nova dança/que veio pra ficar". Não podemos deixar de felicitar a cantora por seu esforço em educar através da música, uma tarefa difícil, mas necessária para que as camadas menos privilegiadas da sociedade tenham capacidade de competir com aqueles poucos que tem acesso às maneiras mais modernas de se balançar o bumbum. Seria interessante ver o impacto deste projeto pedagógico na mobilidade social brasileira dos próximos anos.




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