Monday, June 18, 2012

Autofagia em Philip Roth



Fazia muito tempo que eu não me via perdido ao ler um livro. Minto. Nunca me senti perdido ao ler um livro. Acho que a última vez que eu me senti assim foi ao assistir "Lost in Translation". Sim, já tive epifanias induzidas por um romance (admito envergonhado que achei "Atlas Shrugged" genial da primeira vez que li) e já fui impactado pela beleza ("Uma Sombra na Parede") ou pela engenhosidade narrativa ("Bleak House", qualquer coisa de Machado de Assis). Mas nunca, nem mesmo a ansiedade engagante de "Angústia", me fez querer vomitar como aconteceu comigo ao ler o capítulo 3 de "American Pastoral", Philip Roth. O livro é tóxico, corrosivo. Como resultado, é impossível pra mim fazer uma crítica coerente do livro. Fica então alguns esboços de maneiras pra pensar no livro.

A primeira coisa que me ocorreu é que este livro é uma ilustração da degradação da sociedade de valores, do sonho americano, da desilusão capitalista, de uma série de clichês. Mas essa é uma análise preguiçosa. É o mesmo que dizer que Dom Casmurro é um livro sobre a traição na classe média/alta carioca. O livro é mais que isso. Para mim a obra é um romance psicológico com várias camadas, mas que essencialmente ilustra a incapacidade de um autor, Zuckerman, de inventar pra além da realidade que ele concebe. O livro não fala sobre a história real dos Levovs e sim da versão de Zuckerman.

Um exemplo extremo do que eu quero dizer com isso é que no limbo de Dante, filósofos clássicos pré-cristãos gregos estão lá, mas não Veda Vyasa, um filósofo indiano pré-cristão de quem com certeza Dante nunca ouvira falar. O mesmo se dá neste livro. A história não é, dentro do universo narrativo, uma descrição fidedigna dos fatos e sim uma invenção da história a partir de poucas conversas, lembranças e uma brevíssima investigação dos personagens através de reportagens de jornais. As discussões pré-terroristas com a filha, a interação com Rita Cohen, a corrosão interna do Swede e a discussão com o irmão no final do livro, as relações extra-conjugais, esses elementos que dão a sensação de degradação interna, quase todos são invenções (com variados graus de fundamentação na realidade) de Nathan Zuckerman. Acho inclusive que a própria fragmentação do texto, com separação clara de cada uma das descobertas tem a intenção de não deixar o leitor esquecer que se trata de uma obra de ficção dentro da obra de ficção, numa espécie de anti-realismo.

O que sabemos de fato são eventos mais simples e desprovidos de um julgamento moral. Seymour Levov, um ídolo durante o colegial em sua comunidade foi um membro das forças armadas, casou com a Miss New Jersey, teve uma filha terrorista de quem não se orgulha mas que assistiu até sua morte, se separou e casou novamente, teve outros filhos de quem se orgulha e morreu de câncer de próstata. O único elemento psicológico do Swede que sabemos é sua estoicidade. Conhecemos melhor a psicologia de Jerry, Nathan e de seus amigos de infância, pessoas que o autor conhece, do que de Swede, personagem com quem o narrador tivera três encontros. De certa forma, a personalidade de Swede se define a partir do contraste com os personagens que Zuckerman conhece. Mas um indíviduo possui uma existência em si. Seria possível portanto, mantendo a estoicidade característica do Sueco, escrever a partir destes fatos uma ode ao herói que se recusa a se vitimizar diante da brutalidade do pós-guerra americano. Resolveu escrever a história de um homem que, adulto, descobriu que a vida não necessariamente faz sentido. Essa escolha talvez seja reflexo de um autor deprimido, solitário e impotente, pra quem a vida realmente não faz sentido.

O que não quer dizer que a história escrita por Zuckerman é inverossímil. É, inclusive, a verossimilhança de alguns trechos que embrulharam meu estômago. Como ver Merry, pré-terrorista, se apegar a clichês revolucionários e Merry pós-terrorista se apegar a clichês da Nova Era. Enxerguei-me adolescente, no alto da minha burrice, dando opiniões idiotas como se soubesse de alguma coisa. Nunca estive nem perto de ser um revolucionário, mas a arrogância proveniente da ignorância, refletida na personagem de Merry, tentando salvar o mundo quando não sabia nem mesmo salvar a si mesma, diante da angústia de um pai que está tentando apenas apaziguar o ímpeto estúpido... aquilo me destruiu. Como toda criança de nossa geração, antagonizei mentalmente com meus pais por toda minha adolescência (que ainda não acabou direito) e ainda tenho dificuldades em  respeitar a sabedoria de meus pais. Nunca fui tão justamente ofendido quanto ao ler aquele capítulo 3 miserável.

A verossimilhança da obra, a capacidade de ilustrar o impacto do "revolucionarismo" no seio conservador americano sem uma imposição clara do que é certo ou errado é pra mim o maior valor deste livro. A exposição honesta de dilemas morais é pra mim o maior valor que uma obra literária pode ter. Por que a vida é assim, composta de eventos que podem ser enxergados de múltiplas maneiras. Qualquer outra coisa é panfletagem política.

Esse não é meu livro favorito. Pelo contrário, gostaria de nunca mais ler esse livro na minha vida. E vai levar um tempo até eu ter coragem de ler algum outro livro de Philip Roth. E talvez esse seja o maior elogio que eu possa fazer uma obra intencionalmente corrosiva. Não é um livro que me faz observar os personagens e rir de suas desgraças enquanto eu tomo café. É um livro que me força a sofrer com eles e me faz odiar a mim mesmo. A acusação de Rita Cohen, "Quem você pensa que é? Aposto que nunca produziu nada na vida" também vale pra mim.

2 comments:

  1. Também queria que as pessoas dessem menos importância à carga política do livro (o título é em parte culpado por isso). Há o clima anti-Vietnã, há a nostalgia de uma Newark pré-rinhas sociais, mas isso é pano de fundo para a universalidade das questões morais do livro, para o conflito entre gerações, para a ignorância valente da juventude, para a impotência e o arrependimento paternos, para o desespero gradual de um sujeito que tem (poderia ter) tudo na vida, menos o que é importante. Há ainda, como você ressaltou, a pergunta aberta de o quanto essa vida do Swede ele mesmo viveu e o quanto o Nathan Zuckerman colocou de sua própria visão de mundo (um mundo que não faz sentido e onde é impossível ser feliz) no relato da estória.

    Roth é extraordinário.

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  2. Concordo. Parece até que Roth deixou a carga política de sacanagem, pra galera discutir e ele rir do quanto a crítica se agarraria a esse artifício besta.

    Uma outra coisa que eu estava pensando é no fato de que, de saída, Swede já tem sua redenção, sua vida não foi exatamente trágica, mas a redenção nunca é recuperada.

    Esse livro me deu na verdade uma péssima impressão de Roth como pessoa. Ou é louco ou é sacana. Genial.

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