Monday, July 23, 2012

Narrativas e suas imitações


O livro da vez é "Satie", de Luciano Martins Costa. Eu comprei esse livro baseado no nome, enquanto procurava livros em português numa loja online norte-americana. Achei que fosse um romance minimalista, uma referência ao compositor Erik Satie. Mas o livro é um romance num estilo contemporâneo que me parece comum: narrativas contadas em primeira pessoa, com um viés psicológico machadiano, imersas em um contexto histórico que agem como um imperativo determinsta. Eu chamaria esse estilo de "realismo pós-moderno", ou, pra usar um neologismo de som horroroso que inventei, "enviesismo". Essa descrição se encaixa nos quatro romances contemporâneos que li neste ano: além de "Satie", "American Pastoral", "Legend of Pradeep Matthew" e "Se eu fechar bem os olhos". Esse último romance é o que tem mais em comum com "Satie". Adolescência no Brasil dos anos 60, narrativa em primeira pessoa, história permeada por impressões emocionais, eventos traumáticos utilizados como eixo narrativo. Até o ano de publicação foi o mesmo. Mas ao contrário do vencedor do prêmio Jabuti, este livro é bom.

A história é a de um garoto conhecendo o amor no vale do Ribeira. Através de David, conhecemos um pouco da história da imigração japonesa no interior de São Paulo e do impacto da ditadura* além da perseguição a japoneses durante a segunda guerra. Os personagens adultos são os que mais sentem este impacto: o pai de David, Emanuel de Eiroz, e os pais de Satie, Masato e Satiko Kuno. Emanuel, militar da marinha, participa de uma ação policial trágica durante a segunda guerra mundial, na fazenda dos Kuno. O evento resulta na prisão do tio de Satie, deteriora o relacionamento entre os imigrantes e os brasileiros e dá a fundação a partir da qual a vida de David, que ainda não nascera, correrá.

*Por acaso a ABL obriga todos os livros editados no Brasil a incluir a ditadura?


Mas os eventos políticos e históricos fazem parte apenas do universo dos adultos. David, ao contar sua história, conhece e comenta os eventos, mas estes não fazem parte da memória emocional do narrador. E isto aumenta o grau de verosimilhança da obra: a ditadura e a guerra não foram diretamente traumáticos para o garoto. Por outro lado, a paixão por Satie e as experiências com a morte que o narrador viveu, estas sim marcaram profundamente a vida de David, a tal ponto que ele é incapaz de evitar o uso das emoções na narrativa destes fatos. Não sei se essa separação foi intencional ou foi apenas um produto da honestidade intelectual de um autor inteligente. Mas o resultado é que eu senti que se eu estivesse contando a história de minha adolescência, ela teria essa mesma forma. O plano Real não teria o mesmo tratamento emocional que uma garota.

E é isso que faz deste um livro agradável. Ele rompe com a mania contemporânea brasileira de impor uma visão de mundo enquanto conta uma história. Este livro apenas conta uma história como eu a teria contado. Sim, todo narrador tem uma visão de mundo com a qual ele tinge a narrativa. Mas o narrador que fica sempre explicando tudo, meio à moda Ayn Rand, é um narrador chato e a narrativa soa mais como proselitismo. Mas a partir do momento que este abre mão do controle ideológico de seu texto a força da verdade interior dá o ar da graça e transforma o que era uma imitação de romance em um verdadeiro romance empático, como quem fala "isso foi o que aconteceu, você tire suas próprias conclusões".

O livro está longe de ser "o melhor livro do mundo", mas eu creio que ele está léguas acima de "Se eu fechar bem os olhos". Sem hipérboles, este é o melhor livro brasileiro contemporâneo que li. Não sei se significa alguma coisa porque eu não leio tanto livro assim. Mas ele tem uma qualidade da qual sinto falta na literatura brasileira premiada: a integridade. Existe uma diferença gigantesca entre um discurso político e uma fábula, mesmo quando ambos são completamente ficcionais.

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