Wednesday, August 22, 2012

Afinal, pra que publicamos em revistas científicas


O Fator de Impacto está perdendo importância. O Átila escreveu um texto interessante sobre métricas para avaliação do impacto de autores e seus artigos. O Stephen Curry inclusive recomenda até uma campanha negativa contra o uso do fator de impacto. E não tem muito motivo pra lutar contra essa tendência. Qualquer pesquisador minimamente sério sabe que o fator de impacto da revista não implica na qualidade do artigo. Há inclusive um aspecto danoso: um estudo recente discute a dissonância cognitiva entre o consumo e a publicação de artigos causado por essa estrutura. Mas pra mim, o buraco é mais embaixo.

Só há dois motivos para alguém avaliar o impacto de um pesquisador: masturbação acadêmica e avaliação externa. Masturbação acadêmica é algo inevitável. Cientistas e pesquisadores somos um bando de megalomaníacos e egocêntricos. Mas se fosse só isso, uma métrica de impacto injusta não faria mal algum.

O problema surge quando essa métrica se transforma na forma principal de avaliação do pesquisador pelas agências de fomento. Essas agências querem apenas ver quantas publicações você têm em em quais revistas, sem se importar com a qualidade real da pesquisa. No Brasil esse reducionismo chega ao seu limite através do Qualis. Cada artigo publicado te dá pontos. Esse sistema incentiva fraude, fatiamento de salame, inundação de artigos de baixa qualidade e proliferação de revistas ruins.

Pra enxergar o quão trágico é isso, vale revisitar os motivos por que publicamos. Afinal, revistas acadêmicas não fazem parte da ciência sob uma ótica platônica. Mas elas são parte de nossa rotina diária porque nos permitem 
  • Comunicar à comunidade uma descoberta ou uma idéia nova
  • Corrigir, validar ou debater descobertas ou idéias à luz de novos princípios
  • Se familiarizar com o status quaestionis de uma área diferente da nossa
  • Saber quais são as diversas linhas de investigações adotadas por outras pessoas pra evitar redundâncias
  • Saber o que a comunidade considera boa ciência
  • Tomar posse de um domínio do conhecimento
  • Podar idéias que você considera erradas através de revisões
  • Influenciar o programa científico de sua comunidade escrevendo "Reviews" e "Trends" e revisões
A desgraça ocorre quando adicionamos à lista acima os seguintes motivo:
  • Ter algo para colocar no Lattes ou no currículo
  • Ganhar créditos no programa de mestrado/doutorado
  • Agradar as agências de fomento que financiam seu projeto
Aí se estabelece o caos. A publicação ao invés de ser um subproduto do processo científico se transforma em produto principal. Como resultado, um pobre pesquisador que só quer saber qual a estrutura terciária de uma proteína terá que achar a metafórica agulha num palheiro de publicações horríveis. Um pobre autor se sentirá obrigado a citar o pai, a mãe, a Xuxa e especialmente você para não irritar algum revisor anônimo, por mais irrelevante que um artigo seja.

Acredito que a zona só terminará quando as agências de fomento pararem de usar métricas baseadas em artigos para avaliar a qualidade de pesquisadores. Não tenho solução pra isso. Mas sonho em um dia viver num mundo onde todas as publicações são textos coerentes, de qualidade e não-fatiados.

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