Saturday, February 02, 2013

Dá-me seu genoma e dir-te-ei quem és

"I worry sometimes about how much personal information I post on here, how much would someone browsing through my photos and descriptions really need to steal my identity?"



Um artigo recente na Science (Identifying Personal Genomes by Surname Inference ($), comentário na Wired) demonstrou que é possível descobrir a identidade de um indivíduo do sexo masculino a partir de seu genoma. Já se sabia que é possível adivinhar com uma chance razoável o sobrenome de um indivíduo do sexo masculino a partir de seu genoma. Existe uma correlação alta entre o sobrenome de um homem e alguns marcadores específicos no cromossomo Y. E isso acontece por conta da coincidência entre genética e cultura: o filho de um homem herda de seu pai tanto seu sobrenome quanto seu cromossomo Y.

Mas até aí, grandizcoisa. Só o sobrenome não é de grande valia. O problema é que o sobrenome potencializa dois outros dados que normalmente acompanham genomas em bancos de dados americanos: data de nascimento e estado de origem. Saber o sobrenome aumenta em 5000 vezes a capacidade de adivinhar o dono de um registro em um banco de dados médico:
On the basis of extensive simulations with the U.S. Census data, our results predict that year of birth and state alone are weak identifiers and searches based on their combination would match at least 60,000 U.S. males in 50% of cases (Fig. 1D). However, when surname information is added to the search, the median list size shrinks to only 12 males, which are few enough matches to investigate individually. 
A importância desse tipo de pesquisa vêm dos aspectos éticos do sequenciamento de genomas humanos. O futuro em que este fará parte de um exame médico é inevitável. Há muita informação de relevância médica contida no genoma de um indivíduo. O problema é que essa informação também pode ser utilizada para outros fins: ajustar o preço do seguro de saúde ou decidir, como gerente de saúde pública, quem deve ou não receber um tipo de tratamento específico. Um universo Gattaca é improvável, uma vez que a a idéia de um determinismo genético é uma besteira*. Mas a cautela se justifica. A Oceania de Orwell nunca se concretizou, mas muitos de seus elementos se encontram na Coréia do Norte. Uma sociedade em que uma pessoa paga um seguro de saúde mais caro por ter uma predisposição à diabetes é brutal o suficiente, na minha opinião.

Mais leituras sobre o tema: Andy Ellington.

 *Essa questão do determinismo genético é prima do "nurture x nature" e do "determinismo x livre arbítrio". Pra essas discussões, eu gosto da solução do Olavo de Carvalho: as dicotomia se dissolvem quando paramos de abstrair e observamos os casos concretos. Sem contar a influência de mecanismos epigenéticos e aspectos sociais/culturais na formação de um indivíduo.



No comments:

Post a Comment