Friday, February 08, 2013

Notas sobre ciência e prática científica e discurso


1. Ciência não é uma coisa. Expressões como "ciência x religião" ou "o que a ciência diz sobre batatas" ou "a ciência cura pessoas" são recursos retóricos cujo sentido deve ser extraído do contexto. Se não há contexto, provavelmente o autor está tentando te enganar. "Ciência x religião" em geral é um debate entre um ateu/agnóstico contra um argumento religioso. "Ciência diz algo" em geral é um resumo do consenso científico. "Ciência faz algo" em geral significa que algum cientista fez alguma coisa.

2. A aparência unitária da ciência vem da imagem pública que a ciência tem. Mas a comunidade científica tem um dualismo entre o discurso interno e o discurso externo, seguindo um molde parecido com a distinção entre esoterismo e exoterismo em algumas doutrinas filosóficas e religiões. No discurso externo, parece que há uma grande unificação e que há teorias capazes de explicar tudo. Mas um pequeno mergulho no discurso interno mostrará que há muitas controvérsias e paradoxos. 

3. O tipo mais aparente e imediato de conflito é o intra-disciplinar. Esse é o conflito que muita gente usa quando estufa o peito para falar que o método científico de Karl Popper é progressivo. Alguém levanta uma hipótese, alguma outra pessoa encontra um problema e corrige ou melhora essa hipótese e no processo se constrói uma árvore de conhecimento. Isso funciona razoavelmente bem, mas leva gerações. Porque na prática, raramente um experimento é conclusivo. Até derrubar uma hipótese dominante, são necessários vários experimentos.

4. O segundo tipo de conflito (por exclusão) é o inter-disciplinar. Esse tipo de conflito só é problemático quando um problema científico depende de dois campos disciplinares distintos. O paradoxo surge porque um mesmo processo/fenômeno é observado por disciplinas diferentes de maneiras distintas, cada disciplina com seu grupo de hipóteses. Esses conflitos são sutis, porque afinal de contas as hipóteses são sobre um mesmo fenômeno que existe na realidade. Mas a resolução de conflitos é ainda assim um problema formidável por conta das cargas culturais que cada disciplina traz. Por conta disso, o resultado desse tipo de investigação raramente é a unificação das disciplinas. O que acontece em geral é o surgimento de uma nova disciplina que traz elementos convenientes das disciplinas anteriores e "esquece" o que não importa.

5. Só porque um artigo foi publicado e passou por revisão de pares, não quer dizer que o que está escrito lá é verdade. Sem contar a possibilidade de que um autor fraudou alguma coisa, há também o fato de que um resultado obtido pode contradizer um outro resultado obtido em um outro estudo em uma outra disciplina e ninguém nunca vai resolver o problema porque a verdade é que ninguém nem sabe que esse conflito existe. Essa ressalva vale em dobro pra resultados puramente teóricos ou resultados experimentais que exigem análise estatística de relevância.

6. O fato é que ninguém sabe tudo que foi publicado por todos ao longo de toda a história. Vira e mexe alguém resgata um estudo antigo esquecido ou retoma teorias antigas que contradizem uma teoria vigente. Conhecimento real existe apenas na cabeça do cientista, não na pilha de jornais e revistas científicas. Os jornais e revistas têm apenas informação. O papel de cada cientista é adquirir essa informação, transformá-la em conhecimento dentro de sua cabeça, confrontá-la com a realidade (experimento) e produzir novo conhecimento.

7. Infelizmente, não é possível ler a cabeça de um outro cientista. Por conta disto, é essencial que o cientista codifique o conhecimento novo produzindo informação para que seus colegas e descendentes sejam capazes de absorver parte do que o cientista descobriu. Mas lembre-se que nem todo conhecimento é racional ou pode ser expressado verbalmente. Quando um cientista morre, invariavelmente morre com ele um monte de coisas que ele sabia mas não foi capaz de racionalizar ou verbalizar.

8. Acreditar que a ciência explicará tudo é metafisicamente razoável, mas achar que a ciência explica tudo é demonstração absurda de ignorância. Por exemplo, um grupo de pesquisadores gastou os últimos vinte e tantos anos para entender por que é que as bicicletas não caem. Não estamos falando de coisas profundas como a Grande Teoria Universal. Estamos falando da dinâmica de bicicletas.

9. "Um tolo pode fazer tantas perguntas em uma hora, que um sábio não poderia responder em um ano." O foco desse ditado está no tolo. Mas ele também ressalta a limitação do sábio em saber. Se você é cientista, não há vergonha alguma em responder "eu não sei", pedir tempo pra pensar ou ainda dizer "essa pergunta não me interessa." Lembre-se todavia que há maneiras elegantes de dizer algo, e que numa banca de defesa é melhor responder "essa é uma pergunta interessante, e eu não investiguei no meu estudo mas com certeza é o próximo passo" que responder "que porra você fumou antes de vir pra cá, essa pergunta aí não tem nada a ver com nada."

10. Ao contrário do que pensa a maioria dos popperianos, um cientista não está tentando apenas desconstruir uma hipótese anterior e sim provar sua própria hipótese, que desconstrói elementos de uma hipótese anterior. Cientistas são movidos por uma crença em algo que eles ainda não provaram. Essa crença não é muito diferente de uma crença religiosa. A diferença é que o cientista vai tentar provar sua crença enquanto que o religioso vai viver de acordo com essa crença. Por isso, tratar uma hipótese científica (evolução, gravidade, etc.) como um dogma natural ou tratar um dogma religioso (existência da alma, de Deus, etc.) como hipótese testável é perda de tempo.

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