Sunday, April 14, 2013

Diferenças entre ser bom e conhecer o bem

O mais recente livro em minha jornada para entender a cultura literária contemporânea foi "White Tiger" (Aravind Adiga), vencedor do prêmio Man Booker de 2008. O livro conta a história de um homem indiano de origem miserável que conquistou arduamente seu espaço na sociedade. Esse tema parece remeter ao da história de Slumdog Millionaire.

Mas, ao contrário de Jamal Malik, sua ascensão social não se deu como num conto de fadas em um universo brutal. O protagonista do filme nunca perde sua bondade interna. E isso é possível porque, por mais sofrida que tenha sido a vida de Jamal, a fortuna aparece como resultado de eventos fortuitos, uma recompensa kármica que resulta de sua bondade. Em Slumdog Millionaire, existe uma justiça divina.

Já o universo em que Balram Halwai vive é muito mais injusto, é sombrio, onde é impossível ser recompensado por atitudes nobres. A única maneira de ascensão social é através da conquista brutal do ambiente corrupto e feio. Balram desce moralmente a esses níveis de feiura para poder subir na vida. O que torna esse romance notável é que, ao invés de utilizar o subterfúgio da luta de classes na sociedade, vemos a luta interior entre bondade e sucesso corroendo o interior de Halwai.

Não são os personagens em volta dele nem sentimentos de nobreza ou de justiça social que o levam a pecar contra a sociedade mas sim seus pecados e desejos interiores. Halwai rouba porque quer foder uma prostituta estrangeira. Halwai mata porque teme ser demitido por seu patrão. Do ponto de vista da narração retrospectiva, Halwai racionaliza suas atitudes através da imagem da opressão no galinheiro, imagem que ele usa para descrever a injustiça intrínseca de seu universo. Mas a angústia com que ele descreve seu estado mental diante das escolhas mostram que Halwai percebe o custo que escolhas "maquiavélicas" tem pra sua alma.

Balram entende que vive num mundo em que pessoas são punidas por fazer o certo. E ele faz o errado sabendo que será premiado. Mas, enquanto ele segue na direção sul, sua bússola moral continua orientado para o norte, ele continua consciente da diferença entre certo e errado. Jamal continua sendo uma pessoa boa após sua vida tortuosa. Balram continua sabendo o que é o bem.

A única crítica que eu tenho a esse livro é que o uso da primeira pessoa é artificial. Balram demonstra uma capacidade milagrosa de compreensão de seu mundo, digna de um narrador omnisciente. Por outro lado, os sentimentos de culpa, angústia, inveja aparecem quase sempre através de simbolismos no mundo efetivo, raramente pelo fluxo de pensamentos. E a estrutura confessional não altera em nada o estado do autor ao longo da história. Por esses motivos, eu acho que o romance poderia muito bem ter sido escrito em terceira pessoa. O único motivo que vejo para o uso da primeira pessoa é o fato de que o autor pode se esconder atrás do personagem para emitir opiniões politicamente incorretas, o que para mim é uma atitude covarde.

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