Saturday, April 20, 2013

Sobre o mestrado em Valesca Popozuda

O assunto "ê, Brasil" da semana foi a aprovação de um projeto de pesquisa na UFF. Uma aluna resolveu estudar um assunto que a alta classe cultural brasileira considera desprezível: o funk carioca de Valesca Popozuda. Eu tenho minhas críticas à aparente metodologia tal como apresentada no jornal*. Mas veja, eu acredito que é possível fazer uma análise excelente das funkeiras cariocas como expressão do feminismo no morro. Também acho que é muito prematuro já sair por aí condenando a aluna, a UFF e até o sistema de educação brasileiro sem nem ler a tese da moça. Já os comentaristas do UOL (versão brasileira dos comentaristas do youtube) no entanto fazem críticas à existência do próprio estudo, com aquela afetação intelectualóide típica de quem fala mal de Paulo Coelho mas não sabe exatamente o que está criticando porque nunca lê porra nenhuma. Mas acho que vale a pena examinar os três focos de crítica que eu vi por aí.

* não gosto dessa coisa de ficar usando ideologia (no caso o feminismo) como muleta pra análise de um fenômeno cultural (o funk) 

O primeiro trata da qualidade do funk no espectro cultural brasileiro. Não haveria mérito em um estudo sobre o funk carioca por este ser forma de expressão vulgar e trivial. O funk é uma porcaria, portanto qualquer estudo sobre o funk será uma porcaria. Esse é o tipo de gente que confunde um estudo com o objeto de estudo. Uma tese sobre válvulas cardíacas não é uma válvula cardíaca. Da mesma forma, um estudo sobre funk não é um funk. A tese pode ser extremamente erudita, da mesma forma que um estudo sobre Stravinsky pode ser mais incoerente que um livro de 100 páginas contendo apenas "ah lelek lek lek lek". 

A segunda crítica gira em torno do uso de recursos públicos pra esse tipo de estudo. Acho essa crítica é pertinente no mundo idealizado em que essas pessoas vivem, mas ela parte do princípio de que essa moça está roubando a vaga de alguém que poderia estar fazendo algo mais útil. O problema é que há verba para ciência no Brasil. O que falta não é dinheiro, mas gente capaz de fazer algo com isso. Sim, sempre há a opção de não investir e reduzir impostos, mas... isso não vai acontecer no Brasil.

A terceira trata da utilidade desse tipo de pesquisa. E, aliás, esse é um tipo de crítica que é estendida a todo o corpo de ciências humanas e sociais. O argumento é o que ciências humanas/sociais não servem pra nada. Isso aí é típico da modinha atual dos círculos de amantes do liberalismo* e ceticismo** no Brasil. O curioso é que em muitos casos o mesmo cara que, ao mesmo tempo que diz que estudos culturais não servem para nada, critica o monopólio do pós-comunismo nas redações e nas universidades. Uai, afinal, cultura afeta ou não o indivíduo?

* governo não tem que ficar gastando dinheiro com pesquisa!, dizem estes ao mesmo tempo que usam tecnologias criadas com investimentos deficitários governamentais como a internet ou a quimioterapia ou a Embraer

 ** ciências sociais não seguem o método de Popper! dizem estes, sem saber que a única ciência que segue o método de Popper é a que existe na cabeça deles, sem contar que estes confundem pureza metodológica com utilidade

Usando uma versão bastarda da analogia socrática presente n'A República, a cultura é a alma da sociedade. Ciência e engenharia, são como o conhecimento e coordenação motora no indivíduo. Elas são importantes para a atividade econômica e para o poder militar da nação. Mas a cultura é o que dá sustentação às diversas ideologias presentes na sociedade. Como exemplo, o espírito empreendedor nos EUA não é produto das leis americanas mas parte da alma americana, composta por figuras como George Washington Carver e Benjamin Franklin e Tom Sawyer e Charles Kane. Da mesma forma que o espírito malandro no Brasil foi composta pela presença no imaginário popular da sacanagem dos bandeirantes e senhores de capitanias e cafajestice de personagens de Machado de Assis e Nélson Rodrigues.

Estudos culturais tem o papel de analisar todos esses componentes, tal qual um psicoterapeuta destrinchando todas as influências das experiências escondidas no subconsciente do coletivo. Daí vem sua importância. Um estudo bem feito sobre o funk como expressão feminina ajuda a entender a situação da mulher no ambiente social em que ela vive. Estudos sobre a literatura tem potencial de identificar as origens do caráter nacional. Estudos históricos ajudam a entender porque a política é como é. Estudos sobre religião ajudam a entender porque a moral individual é como é. As ciências sociais e humanas são a forma como a sociedade pára para olhar o próprio umbigo.

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