Saturday, June 22, 2013

Só a antropofagia nos une

Ao longo dos últimos 100 anos, o que era manifesto se integrou na alma do brasileiro: "Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente." Parem de se devorar e comecem a dialogar. Esquerda, direita, reaça, petralha, etc são rótulos que descrevem tendências coletivas mas não indivíduos.

Olhe para o seu próprio umbigo e perceba que você tem um pouco de conservador, um pouco de direitista, um pouco de anarquista, um pouco de libertário, um pouco de comunista, um pouco de fascista. Todos são assim, o que muda é o equilíbrio entre as várias tendências no indivíduo.

Nasci e cresci num país monocultural. Um mundo em que "política, futebol e religião não se discute". Onde educação não era muito diferente de uma doutrinação. Onde discussões em torno de uma opinião ou ação política se reduziam a um julgamento sumário dos indivíduos. Tudo, todos eram analisados sob a ótica da ditadura militar. Tudo ou era Arena ou era MDB ou era do partidão.

O resultado disso é que o brasileiro não aprendeu a lidar com as contradições internas inerentes das ações humanas. Ao invés de tentar entender a questão de fato, o Macunaíma dentro de nós diz "ai que preguiça" e julga sem saber nada. Por exemplo, até hoje é raro alguém falar sobre o FHC como um homem das esquerdas que utilizou ferramentas do mercado de capitais num cenário internacional pró-liberalismo pra estabilizar a economia. O debate é sempre se FHC é um esquerdista de verdade ou não. Oras, o FHC, assim como Lula, Marina Silva, Mangabeira Unger, Roberto Mangabeira, etc... são pessoas com contradições internas que surgem quando passamos do plano das idéias para o plano das ações.

O processo antropofágico real tem uma etapa em que se mata a vítima e ela passa a ser apenas carne. As individualidades humanas necessariamente desaparecem à medida que você vai devorando o outro. Nesse sentido, a antropofagia cultural brasileira é danosa. O problema não é tanto eliminação do indivíduo do discurso real. O problema é a morte ritual, que transforma o seu rival em um pedaço de carne que não interage com outros, apenas serve de nutrição para o nosso ser. Eu só fui entender isso nos últimos 3 anos, e ainda assim tenho dificuldades.

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