Thursday, February 11, 2016

O Jardim das Aflições

Disclaimer: não sei se isso importa, mas eu acompanho o curso online de filosofia do Olavo de Carvalho e poderia ser classificado como olavete.
"Behemoth and Leviathan", aquarela para Butts por William Blake

Num desses casos de navegação aleatória pela internet, dessas que você começa lendo sobre ressonância magnética e termina lendo um artigo sobre as ilhas Pitcairn, eu acabei com um pdf pirateado da segunda edição do Jardim das Aflições, por Olavo de Carvalho. Eu tava lendo coisas sobre o bafafá com o Reinaldo Azevedo a respeito do Jair Bolsonaro durante meu horário de almoço, o livro deve ter aparecido por conta disso.

Comecei a ler o livro e só parei de ler duas horas depois, quando vi que já tinha lido metade. Concluí a leitura no dia seguinte. Precisei concluir a leitura no dia seguinte. Pois eu precisava saber pra onde é que aquela catedral de idéias estava indo.



Comecemos sobre o que o assunto tratado: o livro é uma contextualização da ascensão da esquerda (e do PT) após a redemocratização através da campanha da ética na política*. Ele ilustra a instrumentalização da intelectualidade brasileira para fins políticos que antecedeu a onde anti-Collor e, para esse fim, utiliza somente a história do pensamento ocidental, utilizando como eixo de dialética histórica, o materialismo, intermitente e estúpido, em oposição à tradição filosófica contemplativa, mais eterna. Sim, o instrumento de análise é infinitamente mais interessante e mais complexo que o objeto de estudo. De certa forma, Olavo estava usando canhão pra matar formiga. Ou analisá-la.

Usando a gravura de Blake como referência, o mundo materialista, se limita à luta entre Leviatã (historicista) e o Behemote (cientificista), e ignora a existência do que existe fora desse embate. Já a tradição filosófica, que foca no eterno, inclui o Bem Supremo ordenador, e o homem como imagem de Deus no conflito. Para esse homem filósofo, o combate é apenas um aspecto do todo, e que a tensão entre os dois monstros deve ser apreendida e aceita como tal, para o bem da alma e da inteligência. Essa aceitação é dificílima pois ela implica na aceitação de que tem coisas que só podem ser resolvidas sob o ponto de vista da eternidade. E o gnosticismo**, mãe do materialismo, surge da revolta contra esse fato. Sob essa ótica, tanto Epicuro quanto Marx quanto Motta Pessanha fazem parte dessa corrente gnóstica, que resolver os problemas humanos negando o divino. Após essa análise, Olavo conclui que instrumentalização da ética segundo Epicuro é só parte do jogo.

Comparando com outros livros que li, eu categorizaria esse livro com o interessantíssimo "Tragedy and Hope" do Carrol Quigley (favorito dos fãs de conspiração), o erradíssimo "End of History" do Francis Fukuyama e com o divertidíssimo "Guns, Germs and Steele" de Jared Diamond, no sentido de tentar fornecer uma chave de compreensão pra entender a história. Mas aqui, a chave, os impérios e sua relação com o gnosticismo e a Igreja ao longo da história ocidental, é bem mais consistente e abrangente. E, ao contrário da moda entre livros que adotam uma chave metafísica ou esotérica (como no caso de livros de conspiração), Olavo vai ao fato real, verifica se há uma conexão concreta entre os entes. E com uma linguagem corrente e direta, sem muito rococó.

Esse foi o melhor livro de não-ficção escrito em português que eu já li. Literariamente sólido, de fácil leitura e com um português claro. As dificuldades encontradas pelo leitor vêm da complexidade do tema em si e da vasta quantidade de conhecimento condensado nos parágrafos. Também é o melhor livro de política histórica que já li. Há um tempo atrás eu disse sobre um livro do Luiz Pondé que ele estava tentando fazer uma imitação de uma coluna de Olavo. Depois de ler esse livro, eu entendo que reduzir o Olavo intelectual ao Olavo xingador, colunista ou mesmo ao Olavo professor é restritivo demais. Escrever um livro desse porte é coisa pra pouquíssimos.

Esse livro é muito bom para entender a história intelectual do Brasil no pós-ditadura, tendo a história ocidental como referência. Mas esse livro também é essencial para entender o Olavo, coisa que virou hobby no facebook tupiniquim. O livro deixa bem claro que Olavo não é nem um homem de direita nem um homem de esquerda. Também não é liberal ou conservador. Ele também não é um homem centrista, ou em-cima-do-murista. O que fica claro é que ele não é um ideólogo. Ele é um filósofo realista que tenta enxergar as coisas a partir da ordem suprema. Se há algum erro no que ele enxerga, o erro é dele e não é um erro acidental carregado através de uma ideologia que ele desconhece.

Tem alguns pontos no livro que eu achei mais interessantes, e que eu pretendo desenvolver em outros posts. Mas por ora, fica a recomendação. Leiam esse livro com a mente aberta. E leiam devagar, diferente do que fiz. Acho que qualquer um que ler esse livro com boa fé vai ver porque é que ele manda tanta gente ir tomar no cu pelo facebook quando perguntam pra ele sobre seu interesse em astrologia, sufismo, religiões nova era, etc.

*Que o livro tenha sido escrito em 1995, 7 anos antes da eleição do Lula, demonstra a profundidade da hashtag #olavotemrazão.

**Na acepção dada por Eric Voeglin e da forma como sugere Olavo; eu nunca li nada de Voeglin.

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