Saturday, April 30, 2016

Questões de ciência e a ética por trás da questão da Pepsi e seus fetos abortados

As tais células de fetos abortados (células HEK 293 disponíveis no ATCC)

Parece que rolou uma controvérsia faz uns 30 anos a respeito de uma acusação do Olavão de que a Pepsi usa fetos abortados pra fabricar adoçantes. Curiosamente eu vi muita discussão sobre o Olavo de Carvalho ser astrólogo e muito pouca discussão sobre a matéria em si. Eu inclusive vou me manter afastado dessa parte da controvérsia porque eu não sei quem disse o quê. Estou mais interessado nas questões éticas relacionadas. Se você está aqui atrás apenas de um snopes, aí vai:

- Adoçante é produzido a partir de fetos abortados? Não. 

- Desenvolvimento do adoçante utilizou feto abortado? Sim. Especificamente 1 feto abortado nos anos 70.

- Há consumo de fetos abortados para desenvolvimento de adoçantes? Não. Todas as células são derivadas de aquele único aborto.

Os fatos. A Pepsi desenvolveu uma linha de adoçantes em parceria com a Senomyx, uma empresa de biotecnologia. E o que a Senomyx oferece é uma plataforma de desenvolvimento de adoçantes através do uso de uma linhagem de células humanas, células HEK 293. Células essas que foram extraídas a partir de um feto abortado na Holanda, nos anos 70. 

Biotecnologia. Não é um processo muito fácil manter uma cultura de células humanas. E um dos motivos é que células humanas normais ficam meio baleadas após algumas gerações - param de se reproduzir, morrem cedo, têm um metabolismo alterado. Como o cultivo de células humanas in vitro é interessantíssimo para fins de pesquisa, vários pesquisadores tentaram um monte de coisas para conseguir células humanas cultiváveis - as linhas (ou cepas) de células imortais. Algumas dessas células são derivadas de linhas cancerígenas como, por exemplo, as famosíssimas células HeLa, que vieram de um tumor de uma senhora norte-americana chamada Henrietta Lacks. 

No caso das células HEK 293, essas células são células derivadas de um feto. Mais especificamente, essas células são células de um rim fetal (rim ainda incipiente). E não é só. Essas células foram modificadas com DNA de vírus e são, por isso, capazes de aceitar DNA externo com alguma facilidade. É por isso aliás que essas células são populares entre cientistas: é fácil fazer experimentos com elas. 

O que a Senomyx fez foi modificar células HEK 293 para que elas passassem a produzir proteínas associadas ao paladar. Com estas células, é possível testar diversos aditivos químicos com fins alimentares. Por exemplo, ao produzir células que expressam proteínas associadas ao gosto doce, é possível testar uma infinidade de químicos na busca de um adoçante. E de forma muito mais barata, objetiva e segura que testar em animais ou seres humanos.

Ética. Existe uma questão de fundo ética aqui. Usar o resultado de um aborto para desenvolvimento de um adoçante parece um negócio muito banal, né? Principalmente se você enxerga o aborto como um assassinato. Mas, ainda assim, não se trata de uma situação em que pesquisadores estão continuamente comprando fetos abortados para desenvolvimento de células HEK 293. Células HEK 293 já existem e estão disponíveis para uso por qualquer pesquisador. E essas linhas são utilizadas o tempo todo por pesquisadores (até minha esposa usa!) tentando achar cura pra diversas doenças. Mas no fim, há um pecado original na obtenção dessas células e muitos pensadores da ética acreditam que o vício original nos obrigaria a jogar tudo fora. 

Biotecnologia com células humanas gera questões ética muio complicadas. Se você buscar artigos sobre os primeiros bebês de proveta, verá que na época as pessoas não sabiam se essas crianças teriam alma! E hoje em dia, a possibilidade de clonagem ou da edição de DNA de bebês (os tais designer babies) gera controvérsias imensas. Algumas dessas questões serão resolvidas com o tempo (por exemplo, cura de síndrome de Huntington) e compaixão, eu creio. Mas acho bom sempre ter em mente estas questões, pra evitar catástrofes humanitárias em nome do progresso.

No comments:

Post a Comment