Thursday, November 03, 2016

O Poder do Meme - Preliminares

Na guerra de informação à qual estamos sujeitos, o meme se tornou o equivalente de uma bomba nuclear. Resolvi montar uma coletânea de posts com idéias ligadas a esse conceito. Essa série de posts é um "pensando alto" mais do que uma tentativa de convencer alguém de algo. Post sujeito a updates. Pra variar, muitas das idéias não são minhas mas eu não vou perder muito tempo documentando a origem delas - mas eu te digo se você me perguntar.

1. O que o indivíduo sabe

Sem tentar entrar muito na discussão entre objetividade e subjetividade, existência da verdade e todas essas discussões século XX, há um consenso de que independente da sua opinião sobre a existência do ser, do real e dos limites cognitivos, algo você sabe. Na pior das hipóteses você sabe que nada sabe. Isso em si é um saber. Se isso não faz sentido pra você, leia as duas frases anteriores até entender isso. 

Pois bem, a maioria das pessoas sabe um pouco mais do que isso. Alguns sabem o que comeu no café da manhã, a cara do Lula, em quem votou nas últimas eleições, sobre a lei da gravidade, sobre o aquecimento global, sobre o aquecimento global ser uma fraude, sobre a "aquecimento global é uma fraude" ser uma conspiração dos porcos capitalistas, sobre a seleção, enfim. Você, leitor, sabe de várias coisas. Muitas dessas coisas se relacionam com outras coisas que você sabe. Por exemplo o seu saber da lei da gravidade deve estar relacionado com o saber da lei da inércia (e se não está, recomendo parar de ler isso aqui e ir ler um livro de física do segundo grau). Mas note que os dois saberes são distintos. Em um caso a lei da gravidade na forma mais cotidiana é "coisas caem pra baixo" e a lei da inércia é "coisas com mais massa são mais difíceis de manipular." Cada uma dessas idéias pode ser enxergada como uma coisa em si. Vamos chamar isso de cóison

Claro que um cóison pode ter uma complexidade maior - ele pode ser composto de vários outros cóisons - os subcóisons*. Por exemplo, "coisas caem pra baixo" exige o conhecimento de "coisas", "cair", "direção" e "baixo." Mas note que, no indivíduo o conhecimento do conceito "coisas caem pra baixo" não exige conhecimento detalhado dos subcóisons. A ausência de um subcóison no indivíduo não é fatal ao cóison. Essa ausência pode ser compensada por conceitos intuitivos (por exemplo, pra maioria das pessoas cair não chega a ser uma idéia, apenas algo que acontece e todo mundo sabe como é) ou por condicionamento. Um exemplo de condicionamento é, por exemplo, o fato de que muitas pessoas não sabe o que é dívida externa mas atribui valores negativos a ela e são capazes de saber o cóison "dívida externa brasileira é ferramenta do imperialismo norte-americano." 

*O subcóison não está em uma hierarquia de cóisons. Ele também é um cóison que pode ter seus subcóisons. Se o cóison é quântico ou não, isso aí é uma outra questão que não me interessa muito.

Bem, dada as preliminares, o que importa pra essa análise do meme é a origem do cóison no indivíduo. Todo cóison pode sempre ter duas origens: uma origem venal e uma origem estruturante. A origem venal é o "de onde vem a idéia." O venal aí é no sentido comercial mesmo, de quem eu peguei o cóison. A origem estruturante é "como é que eu sei disso." O estruturante vem da rede cognitiva/lógica que dá suporte ao cóison. Por exemplo um cóison pode ter sido ensinado em sala de aula, aprendido em casa, com amigos, com os filhos. Isso é a origem venal. Mas um cóison ensinado em sala de aula pode ter seguido uma progressão pedagógica que dá sentido ao cóison e portanto faz sentido. A origem estruturante é a rede de cóisons e intuições e observações que dá sentido ao cóison. 

Uma última observação sobre o cóison: ele existe no indivíduo. A partir do momento em que queremos transferir um cóison pra uma outra pessoa, não há transferência direta de cóison. O que fazemos é transformar o cóison em uma mensagem e transmitir a mensagem. 

2. Funções da Linguagem

Agora que eu saturei vocês com um monte de conceitos que eu inventei, vamos aqui pra um conceito que é bem conhecido, o das funções da linguagem do Jakobson. Nessa teoria, o processo de comunicação é analisado nos vários componentes. Num processo comunicativo, temos um emissor, um receptor, um canal para comunicação, um código ou língua, um contexto compartilhado pelo emissor e receptor e a mensagem transmitida em si. A teoria ainda diz que a mensagem em si pode estar relacionada aos vários componentes, e cada uma dessas relações é uma potencial função da comunicação (inclusive eu acho que a teoria é sobre comunicação, não sobre linguagem).

Imagem kibada da internet. Inclusive as setas não fazem sentido algum.

Como ilustrar é sempre mais eficaz, vamos fazer a análise deste post de acordo com a teoria. Primeiro os componentes mais fáceis: O emissor sou eu e o receptor é você. A mensagem é este post. Agora pros mais complicados: O código é a língua portuguesa brasileira escrita no registro informal corrente de 2016 com anglicismos. O canal é este blog, a internet, as redes sociais onde esse post pode ser compartilhado. O contexto é nosso universo, mas a ênfase está sendo dada pra comunicações no mundo. 

Vamos para as funções? Esse texto tem um nível muitíssimo baixo de função emotiva, metalinguística ou fática*. Afinal eu estou tratando muito pouco de mim mesmo, não estou discutindo a língua nem estou trabalhando muito o canal. Eu vou discutir bastante veículos de comunicação mas na função referencial pois estarei tratando de canais em geral, não deste canal que eu estou utilizando pra comunicar com vocês. Já as funções poéticas e conativas aparecem com alguma freqüência. A função poética aparece pois eu estou tentando fazer a mensagem em si agradável. Já a função conativa aparece nos recursos retóricos e dialéticos que eu usei e vou usar: note que eu apelo bastante para o seu conhecimento no processo de te convencer. A função principal aqui é a referencial: eu estou falando de algo externo a nós dois mas que nós dois podemos perceber do mundo. Entendido? Entendido. 

*acho o nome horrível, eu chamaria essa função de metamidiática ou algo assim

3. Retórica, dialética e discurso

Uma outra forma de analisar uma comunicação é usando a distinção aristotélica entre discurso retórico e dialético. Esse conceito é batidíssimo, então não tem muito o que falar aqui. Retórica é a fala que apela a conceitos emotivos enquanto que a dialética é aquela que apela a conceitos antecedentes, fatos e lógica. Usando o conceito de cóisons de lá de cima, o discurso retórico é aquele que tentar impor um cóison através do agrado aos outros cóisons "sabidos" pelo ouvinte enquanto que o discurso retórico é aquele que forma ou fortalece um cóison através da construção dos outros cóisons. 

* conceitos são aristotélicos, mas foram digeridos por muita gente, o que tá aqui é a minha versão.

Sempre lembrar que um discurso muito raramente é puro. Também acho que vale lembrar da teoria dos quatro discursos do Olavo, do qual gosto, mas que não se encaixa nisso pois discurso poético não trata de mensagens sobre cóisons e discurso lógico é um cóison que se transforma em um discurso dialético puro (ou um discurso incompreensível que sofre de 'autismo').

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