Saturday, March 11, 2017

Hinduísmo básico

Não me julgo capacitado pra ensinar nada de espiritualidade ou de hinduísmo pra ninguém. O intuito é esboçar, mapear por alto os vários caminhos pra quem se interessar pelo assunto.

Primeiramente é preciso entender que o hinduísmo é um termo muito abrangente e equívoco. Originalmente, esse termo foi utilizado pra definir todos os povos indianos que não são "do livro" (judeus, cristãos e muçulmanos). Esse conceito é um pouco abrangente demais pra ser útil, pois abrange a população zoroastriana (farsi). Então eu vou usar um conceito que restringe um pouco mais o hinduísmo às religiões que derivam do amálgama de religiões pagãs que já estavam lá antes do século 5 a.C. É, creio, o que vocês pensam quando pensam hindu.

Acho que a primeira coisa que as pessoas querem saber quando querem conhecer uma nova religião é "no que afinal você acredita?" E já daí surge uma grande dificuldade. O maior entrave pra entender as várias correntes no hinduísmo vai ser o impulso natural de mapear elementos do hinduísmo a elementos do cristianismo/islã/judaísmo. O pensamento analógico pode ser uma ótima muleta. O problema é que às vezes a muleta mais atrapalha que ajuda.

Prefiro definir primeiro o hinduísmo dentro dos próprios termos, não no contexto de religião comparada. O hinduísmo é, antes de uma religião, uma federação de filosofias e práticas que compartilha uma mesma metafísica que inclui uma alma capaz de transcender ao supremo. Daí derivam muitas crenças que prezam a supremacia da cognição individual sobre cognição recebida. Não há um artigo de fé comum. Não há um consenso sobre a exata natureza do divino. Não há um consenso sobre a relação entre nós e esse divino. Pode até parecer esquisito começar explicando algo pela descrição do que ele não tem. Pois bem, é assim com uma religião filosófica. Neti neti.

Dito isso, há sim uma plataforma comum entre os vários hinduísmos: dharma e karma. Dharma é moral, justiça, aquilo que é o dever da pessoa de fazer. Seguir o dharma é seguir o que é certo. Karma é a consequência natural que resulta de uma ação que você faz. E a relação entre dharma e karma é a seguinte: se você age de acordo com o que comanda seu dharma, a tendência é que o karma vá na mesma direção desse dharma. Por exemplo, se você é um militar, prática de armamentos e disciplina vai levar a vitórias, promoções, etc. Se você é um bom médico, estudo e zelo pela prática da medicina vai levar à melhoria na qualidade de vida dos pacientes, satisfação pessoal, gratidão de familiares, etc. Bom karma resultará da aceitação do seu dharma.

Mas é importante notar que o dharma de um militar é distinto do dharma de um médico. Um mata como profissão, o outro salva vidas. Bom karma é bom apenas se você segue seu dharma. Um militar que ganha a guerra recebe honras, mesmo que ele tenha matado alguém. Um médico que fere o juramento de Hipócrates, por outro lado, cai em desonra. Fica claro que o hinduísmo não considera as pessoas todas iguais (ao menos nesse mundo material). Cada um tem seu papel a cumprir. Sim, isso abre um espaço pro relativismo moral. Mas a liberdade pro relativismo moral no hinduísmo não é ampla. Não é "tudo pode" é mais "olha você pode fazer isso aí, mas não reclama das consequências depois."

É exatamente dentro desse contexto moral que vem o conceito de varna (comumente traduzido como casta. Eu discordo dessa tradução mas pra esse post tá bom). Há aspectos perniciosos do sistema de castas, principalmente quando se pensa nele como algo hereditário, mas não quero entrar muito nessa discussão aqui. O que é essencial pra prática hindu é o conceito de que o dharma não é universal. Cada um tem seu dharma. Cada um tem seu karma. A regra de ouro pra boa convivência no mundo ocidental é "faça ao outro o que você quer que façam a si." A versão indiana é "faça ao outro o que ele quer que lhe seja feito."

Dentro desse sistema de moral individual, há também um ciclo de ressurreição e liberação (moksha/nirvana). Há também o conceito de céu e purgatório também. Muitas correntes e muitas crenças, como eu disse lá em cima. Mas desse sistema básico divergem duas correntes que são consideradas hinduísmo não-ortodoxo: jainismo e budismo (tem mais, mas essas são majoritárias). Já as correntes ortodoxas aceitam o conhecimento dos vedas.

Vedas são um corpo literário de tradição oral. O mais antigo dos vedas, o Rk Veda, é a obra literária mais antiga que existe (mas o Gilgamesh é a obra literária escrita mais antiga que existe). Os quatro vedas, Rk Veda, Sama Veda, Yajur Veda, Atharva Veda são obras religiosas/poéticas e muitos dos versos não tem um significado claro (pra mim que sou muito iniciante no assunto). Além dos Vedas, há também comentários (Brahmanas e Upanishats) que compõe o Vedanta. Vale ressaltar também o corpo literário de Agamas, que são textos mais aplicados de conduta e rituais, e dos quais não sei absolutamente nada além dessa frase.

Vedas e Upanishats são uma literatura bastante complexa e não são um bom ponto de entrada. A forma mais comum de familiarização são os Puranas, histórias e contos de deuses, e Itihasas, literatura épica que inclui o Mahabarata e o Ramayana. Dentro do Mahabarata, há ainda o Bhagavad Gita, 18 capítulos que descrevem um diálogo entre Krishna e Arjuna (personagens na história). O Gita é particularmente importante devido à quantidade de questões existenciais e morais que são discutidas. Pras mentes racionalistas (Jnana Yoga), a tendência é estudar esse Itihasa e o Vedanta. O conhecimento irá levar à compreensão do real e da relação do indivíduo com o absoluto, o que leva no fim à auto-realização e liberação (moksha). E qual é esse conhecimento? Bom a essência é a idéia de que tudo é faz parte do Brahman, o absoluto, o eterno. E a criação faz parte desse tudo. E nós fazemos parte desse tudo. E a parte eterna de nós (atma) faz parte desse tudo. A liberação é a realização dessa unidade entre atma e Brahman.

Mas o hinduísmo não oferece só esse caminho. O tantra, por exemplo, é uma família de práticas religiosas que acredita que auto-realização pode ser obtida através de rituais específicos e esotéricos. O Kama Sutra, famoso, faz parte da literatura tântrica. Yoga, explicado no Yoga Sutra de Pantanjali descreve uma disciplina de práticas meditativas e poses que leva a essa auto-realização. O movimento Bakthi prescreve devoção a uma deus ou divindade específica e acredita que através dessa devoção o amor divino é realizado. Os Hare Krishna (ISKCON) são um grupo bakthi que acredita que a devoção à Shri Krishna é o caminho. Dentro do próprio caminho do conhecimento (Jnana Yoga), existe várias correntes que divergem nos detalhes da metafísica, cognição e conhecimento. Só pra citar nomes de algumas correntes, eu conheço advaita, mimamsa, vedanta, bedha abedha.

Dentro dessa diversidade de práticas e caminhos não tem heresia. E ela não existe porque nenhum desses caminhos é um caminho de fé pura. São práticas que você pode seguir e se você seguir e funcionar muito bem e se não funcionar talvez não era pra você. E se você não seguir, tá OK também. E você pode inclusive seguir várias ao mesmo tempo. Entenda: pra mim você não tem uma chance só nessa vida e se você nessa vida pecar demais e orar "de menos," você está fadado ao inferno. Você faz o que você conseguir, o que você acha que está certo. Se funcionar, ótimo. Se não funcionar, tá OK você vai renascer e ter outras chances. E, por mais que a vida tenha sofrimento, viver é bom. Estar vivo não é uma punição. Pra mim a passagem terrena não é uma luta pela salvação da minha alma. É um ambiente onde devemos balançar quatro objetivos:
- Dharma (cumprir os meus deveres sociais, profissionais e familiares, fazer o que é certo),
- Artha (juntar riqueza, que trará conforto terreno no longo prazo),
- Kama (me divertir, ter prazer nas coisas mais mundanas no curto prazo), e
- Moksha (prezar pela liberação final da alma, lembrar que o eterno está acima do profano).

É dentro desse contexto que, pra mim, não há nada de errado em ser católico e ir pra missa e confessar. Ou rezar 5 vezes por dia voltado à Mecca. Ou deixar de misturar leite com carne. São práticas. São seu dharma. Mesmo que eu não entenda, e mesmo que eu não acredite que funcione pra mim, são suas práticas. São práticas que eu respeito. A existência de múltiplas religiões que não dizem a mesma coisa são um mistério. Que um dia, creio, entenderei.

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